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Três alunos acharam a volta escondida no SAT de 1982

A banca dava 3 como certo para um círculo rolando em volta de outro. A conta verdadeira dá 4, e ninguém da banca percebeu.

Círculo pequeno rolando em volta de um círculo três vezes maior.

Raio 1 em volta de raio 3: quatro voltas

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Quantas voltas um círculo dá ao rolar em volta de outro com o triplo do raio? Quatro, e em maio de 1982 a banca do SAT garantiu por escrito que eram três.

A pergunta caiu na parte de matemática do exame de 1º de maio de 1982, a prova de admissão das universidades americanas. Um desenho mostrava dois círculos encostados. O círculo A tinha raio igual a um terço do raio do círculo B. A rolava em volta de B, sem escorregar, até voltar ao ponto de partida. Quantas voltas A dava em torno do próprio centro?

As cinco alternativas eram 3/2, 3, 6, 9/2 e 9. O gabarito marcava 3. A conta parece limpa: a borda de B mede três vezes a borda de A, então A precisa girar três vezes para cobrir o caminho inteiro.

A conta esquece um detalhe. Enquanto rola, o círculo A também faz a viagem completa em torno de B, e a viagem soma uma rotação inteira por cima das três. O total dá 4, e o número 4 não aparecia entre as cinco opções.

Cerca de 300 mil candidatos fizeram aquela versão da prova. Quase todos marcaram 3, chutaram outra letra ou pularam. Os elaboradores da Educational Testing Service, a ETS, empresa responsável pelo exame, tinham revisado a questão e aprovado o gabarito.

Três candidatos não aceitaram. Escreveram para a ETS explicando o erro, e a empresa admitiu a falha semanas depois: a questão saiu da contagem e as notas foram recalculadas.

O erro tem nome entre matemáticos: paradoxo da rotação da moeda. Com duas moedas iguais, a de fora gira duas vezes ao contornar a de dentro, e quase ninguém acredita até testar na mesa.

Logo abaixo, quem eram os três e por onde a banca escorregou; depois, um enigma com engrenagens para resolver sozinho, e a conta passo a passo.

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I  A resposta de ontem

Três cartas contra o gabarito da ETS

A resposta de ontem

Quantas peças tinha o quadrado perfeito de Sprague, de 1939?

Tinha 55 quadrados. Roland Sprague publicou o arranjo em 1939 na revista Mathematische Zeitschrift, em Berlim: um quadrado de lado 4.205 montado com retângulos perfeitos encaixados, um quadrado composto. O total de peças só desceu nas décadas seguintes, até as 21 de Duijvestijn em 1978.

Os três candidatos que derrubaram a questão se chamavam Shivan Kartha, Bruce Taub e Doug Muir. Eram alunos do ensino médio, moravam longe uns dos outros e não se conheciam. Cada um percebeu o erro por conta própria e escreveu à ETS.

A empresa recebia reclamações de gabarito com frequência, e a maioria vinha de candidato insatisfeito com a própria nota. As três cartas traziam outro conteúdo: a conta completa, com o motivo da quarta volta.

O argumento cabe num exercício de mesa. Marque um ponto na borda do círculo pequeno, apontado para fora. Role o círculo um terço do caminho em volta do grande, o trecho em que a borda dele encosta inteira uma vez. O ponto já passou de apontar para fora: o círculo girou uma volta e mais um terço.

A explicação geral olha para o centro, e não para a borda. O centro do círculo pequeno percorre um caminho de raio 4, o raio 3 do grande mais o raio 1 do pequeno. Esse caminho mede 8π.

O círculo pequeno, de borda 2π, gira uma vez a cada 2π que o centro avança. Oito pi dividido por dois pi dá 4. A conta da banca dividia a borda do grande, 6π, pela borda do pequeno, e chegava a 3.

Quem conta as voltas pela borda do círculo grande perde a volta da viagem: o centro anda num caminho maior do que a borda.

A banca admite

A ETS confirmou o erro e tirou a questão da contagem para todos os candidatos daquela versão. As notas de cerca de 300 mil provas foram recalculadas, e a empresa avisou as universidades que já tinham recebido os resultados.

O caso saiu no New York Times em maio de 1982. Um ano antes, um aluno da Flórida já tinha derrubado uma questão de pirâmides do PSAT, a prova preparatória, e a ETS vinha sendo cobrada pela revisão das próprias perguntas.

A questão do círculo tinha passado por várias rodadas de revisão interna. Ninguém da equipe recortou dois círculos de papel e girou um em volta do outro, o teste de dois minutos que teria mostrado a quarta volta.

O erro sobreviveu porque a resposta errada é coerente. Três vezes a borda, três voltas: a conta fecha, as alternativas oferecem o 3 e nada no enunciado acende alerta.

A quarta volta só aparece para quem muda o ponto de vista. Visto de cima, o círculo pequeno roda pelo contato e roda pela viagem, e as duas rotações vão no mesmo sentido.

Os três candidatos fizeram o que a banca deixou de fazer: desconfiaram de uma conta fácil demais para a pergunta.

 
 

II  O Enigma do dia

Duas engrenagens na mesa da cozinha

Uma engrenagem de 10 dentes roda engrenada em volta de uma engrenagem fixa de 40 dentes, do mesmo tamanho de dente, até voltar ao ponto de partida. Quantas voltas a engrenagem pequena dá em torno do próprio eixo?

O arranjo existe de verdade e tem nome: trem epicicloidal, ou engrenagem planetária. A peça fixa no meio é o sol, a que roda em volta é o planeta, e o desenho aparece em câmbio automático de carro, em batedeira e em relógio de pulso.

Com o mesmo tamanho de dente, o número de dentes funciona como o raio. A fixa de 40 dentes tem raio quatro vezes maior que a pequena de 10.

Antes das pistas, as regras:

• A engrenagem fixa não se mexe em momento nenhum.

• A pequena roda sem pular dente e sem escorregar.

• A volta conta em torno do eixo da própria engrenagem pequena, olhando de cima.

A primeira pista: conte quantos dentes da grande a pequena encosta durante a viagem inteira. Cada dente encosta uma vez só.

A segunda pista: divida esse total pelos dentes da pequena. O resultado dá as voltas que o contato produz, e só essas.

A terceira pista: marque um dente da pequena com caneta e veja para onde ele aponta quando a engrenagem chega ao lado oposto da fixa, na metade do caminho.

A quarta pista: o eixo da pequena anda num círculo cujo raio soma os raios das duas engrenagens.

Onde o raciocínio escorrega

A primeira armadilha é parar na segunda pista. A divisão dos dentes dá um número redondo e convincente, e foi esse número que a banca do SAT marcou como certo.

A segunda é achar que a viagem tira voltas. Por fora, a viagem gira no mesmo sentido do rolamento e soma.

A terceira é contar a volta olhando para a engrenagem fixa como referência. A volta se mede contra a mesa, e a mesa não roda.

O contato dá as voltas da borda, e a viagem em volta do centro soma mais uma, sempre no mesmo sentido.

Responda por escrito: diga o número de voltas e a conta que leva até ele.

 

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III  Sequência

A quinta volta vem da viagem

A engrenagem pequena dá 5 voltas. A conta sai em cinco passos:

1. A pequena encosta os 40 dentes da fixa, um por vez, durante a viagem inteira.

2. Quarenta dentes divididos pelos 10 da pequena dão 4 voltas de contato.

3. Ao completar a viagem em torno da fixa, a pequena também gira uma vez inteira pela própria trajetória.

4. As duas rotações vão no mesmo sentido, então somam: 4 mais 1 dá 5.

5. Pelo centro, a conferência fecha igual: o eixo da pequena anda num círculo de raio 50 (40 mais 10), e 50 dividido por 10 dá 5.

A fórmula geral para um círculo rolando por fora de outro é o raio do grande dividido pelo raio do pequeno, mais um. No SAT de 1982, 3 dividido por 1 dava 3, mais um, 4.

Com duas moedas iguais, a razão vale 1, e a moeda de fora gira duas vezes. É o caso mais curto do paradoxo, e o mais difícil de aceitar sem testar.

A mesma soma aparece longe da mesa. A Terra gira cerca de 366 vezes em relação às estrelas durante um ano, uma a mais que os 365 dias medidos pelo Sol, porque a viagem em volta do Sol soma uma rotação.

Os astrônomos chamam a diferença de dia sideral e dia solar. O dia sideral dura cerca de 23 horas e 56 minutos, quatro minutos a menos que o dia solar.

A volta extra nunca some: ela está no relógio dos astrônomos, na engrenagem do câmbio e na questão que o SAT anulou.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes de conferir a solução, e o placar zera quando você espia fora da hora.

“Quantas voltas a engrenagem de 10 dentes daria em volta de uma fixa também de 10?”

Teste hoje: ponha duas moedas de R$ 1 lado a lado na mesa, segure a de baixo com um dedo e role a outra em volta dela, sem escorregar, até a posição inicial. Conte quantas vezes a efígie da moeda que roda fica de pé. O esperado é contar duas, embora quase todo mundo aposte em uma antes de começar.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quantas voltas o círculo de raio 1 daria se rolasse por dentro de um círculo de raio 3?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, qual foi o número de voltas que a ETS confirmou como resposta correta para a questão do círculo no SAT de maio de 1982, mesmo esse valor não aparecendo entre as cinco alternativas da prova?

A3
B4
C6
D9/2

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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