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Quatro na ponte com uma lanterna só
Quatro pessoas, uma lanterna, uma ponte que aguenta dois por vez e um portão que fecha em 17 minutos: monte a ordem das travessias.
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Quatro na margem e uma lanterna acesa
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Em 1623, num tratado em latim sobre a dignidade das ciências, Francis Bacon descreveu um jeito de esconder um recado dentro de outro. Nada de tinta invisível nem de alfabeto secreto: bastava imprimir o texto de fachada com dois tipos de letra quase iguais, um que ele chamou de a e outro de b.
Cada letra do recado escondido virava um grupo de cinco posições, do tipo aaaba ou babaa. Cinco posições com duas escolhas em cada uma dão trinta e dois arranjos diferentes, folga suficiente para as vinte e quatro letras do alfabeto latino da época. Quem lia a página via um bilhete banal; quem sabia comparar os tipos lia outra coisa por baixo.
A frase que Bacon deixou junto do método vale mais que o método. Qualquer coisa pode exprimir qualquer coisa, escreveu ele, desde que a primeira admita apenas duas diferenças. Não é preciso um sinal rico para carregar um recado grande. Bastam duas caras e um número de posições que você saiba contar.
Repare no que a conta faz com a intuição. Cinco letrinhas não parecem capazes de carregar um alfabeto inteiro, e carregam. O motivo é que cada posição nova não soma ao que já existia: ela dobra. Uma posição separa duas coisas, duas separam quatro, três separam oito, e a escada sobe rápido demais para o chute acompanhar.
Quando cada resposta de sim ou não sai cara, a pergunta muda de endereço. Deixa de ser quantas coisas dá para examinar e passa a ser quantas posições independentes dá para montar antes de a leitura começar. O trabalho pesado se concentra na hora de distribuir, e a leitura no fim só confirma o que a distribuição já decidiu.
Antes de pisar em ponte nenhuma, falta fechar a conta da adega: mil garrafas, uma delas contaminada, tiras que só falam depois de 24 horas e uma leitura única. O número de tiras que resolve a noite inteira é bem menor do que quase todo mundo aposta.
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I A Resposta de Ontem
Dez tiras para mil garrafas
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Mil garrafas, uma leitura só, e dez tiras de papel dando conta da adega inteira.
Mil garrafas iguais, exatamente uma contaminada, tiras que levam 24 horas para reagir e uma única leitura amanhã de manhã. Dez tiras bastam para as mil, e ainda sobra espaço para mais vinte e quatro garrafas.
A vontade natural é dividir a adega em grupos e ir estreitando o cerco. Estreitar exige rodada nova, e rodada nova custa outro dia inteiro.
Como o relógio proíbe a segunda rodada, o plano precisa caber num gesto só: pingar tudo de uma vez e ler tudo de uma vez.
A virada está em parar de pensar em teste e começar a pensar em nome. Numere as garrafas de 0 a 999 e escreva cada número em binário, com dez casas: a garrafa 0 vira 0000000000 e a garrafa 999 vira 1111100111.
Agora dê uma casa a cada tira. A primeira tira responde pela casa dos 512, a segunda pela dos 256, e a conta desce até a décima, que responde pela casa do 1. Cada garrafa pinga uma gota em toda tira cuja casa aparece com 1 no número dela.
A garrafa 738 tem 1 nas casas 512, 128, 64, 32 e 2, então ela encosta em cinco tiras e ignora as outras cinco. A garrafa 3 encosta em duas. A garrafa 0 não encosta em nenhuma.
Vinte e quatro horas depois, as dez tiras estão na bancada, cada uma com um sim ou um não estampado. Escreva 1 para a que reagiu e 0 para a que ficou limpa, na ordem das casas, e o desenho é o número da garrafa. Nenhuma outra produz aquele mesmo desenho.
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As dez tiras não testam dez garrafas. Elas escrevem, em dez casas, o nome de uma entre mil.
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Dez é o mínimo porque a leitura só produz tantos desenhos quantas forem as combinações de sim e não. Com nove tiras saem 512 desenhos diferentes, menos do que as mil garrafas, e duas garrafas terminam com a mesma assinatura.
Com dez tiras saem 1.024 desenhos, e a adega inteira cabe com folga.
A escrita de dois algarismos tem endereço antigo. Leibniz publicou a Explication de l'Arithmétique Binaire nas memórias da Academia Real das Ciências de Paris, em 1703, mostrando que zero e um fazem sozinhos o serviço dos dez algarismos.
O princípio que fica é o da pergunta simultânea. Dez perguntas ao mesmo tempo separam mil casos, e as mesmas dez em fila gastariam dez dias para chegar no mesmo lugar.
Guarde a peça que fechou a adega: o preço da noite é o da leitura mais lenta, nunca a soma das tiras. O enigma de hoje troca as garrafas por quatro pessoas na beira de uma ponte, com uma lanterna só para os quatro.
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II O Enigma do Dia
O portão que fecha em 17 minutos
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Quatro pessoas precisam atravessar uma ponte no escuro. A ponte aguenta no máximo duas por vez, a única lanterna do grupo tem que ir junto em toda travessia, e uma dupla anda no passo do mais lento. Sozinhas, elas levam 1, 2, 5 e 10 minutos. O portão do outro lado fecha em 17 minutos. Em que ordem elas atravessam?
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A noite é fechada e as tábuas da ponte têm buraco. Ninguém pisa ali sem a lanterna acesa na mão, nem na ida nem na volta.
A lanterna não voa, não desliza pelo corrimão e não fica pendurada no meio do caminho. Se ela precisa voltar, alguém volta segurando ela.
Quem já atravessou pode atravessar de novo quantas vezes quiser. O relógio começa quando o primeiro pé pisa a ponte e para quando o quarto pé pisa o outro lado.
Cada pessoa anda sempre no próprio passo, e uma dupla anda no passo do mais lento. O de 10 minutos não fica mais rápido acompanhado, e o de 1 minuto não empurra ninguém.
Fora da regra: atravessar a nado, jogar a lanterna, colocar três na ponte, carregar alguém nas costas, esperar o dia clarear e entregar três do lado de lá com um preso do lado de cá.
Onde quase todo mundo trava
A primeira tentativa é eleger um guia. O de 1 minuto leva cada um dos outros e volta sozinho para buscar o próximo, e a volta sai sempre pelo preço mais baixo.
Faça a soma desse plano. Dois minutos com o de 2, um de volta, cinco minutos com o de 5, um de volta, dez minutos com o de 10. Dá 19, e o portão fecha em 17.
A segunda tentativa é mandar o de 10 na frente, para tirar o peso do relógio logo no começo. Ele continua custando 10, e ainda alguém precisa voltar com a lanterna.
A terceira é declarar o problema impossível. O de 10 sozinho já come mais da metade do prazo, e a conta parece não fechar de jeito nenhum.
O relógio não cobra por pessoa, cobra por travessia.
Repare no formato de qualquer plano que funcione. São cinco travessias: três de ida, com duas pessoas cada, e duas de volta, com uma pessoa cada. Menos que cinco não move os quatro, mais que cinco desperdiça viagem.
A palavra que trava a maioria é acompanhar. Acompanhar sugere um guia fixo, e o melhor acompanhante nem sempre é o que anda mais rápido.
Existe uma ordem que fecha os quatro dentro dos 17 minutos, sem apelo e sem regra torcida. Ela não passa pelo plano do guia, e o que ela faz com o de 10 é o que a maioria descarta na primeira leitura.
O enunciado está inteiro aqui em cima. Quatro pessoas, uma lanterna, uma ponte que aguenta dois e um portão que fecha em 17 minutos.
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