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Os 36 oficiais que não cabem no quadrado
Leonhard Euler propôs em 1782 um arranjo de seis regimentos e seis patentes num tabuleiro 6 por 6, e a conta só fechou 118 anos depois.
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Seis regimentos, seis patentes, um tabuleiro que resiste
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Por que um tabuleiro de 6 por 6 aceita seis regimentos em qualquer fileira, aceita seis patentes em qualquer fileira, e trava quando as duas exigências valem juntas? Porque as duas disputam as mesmas 36 casas, e o encaixe que resolve uma estraga a outra. Quem tenta na mão fecha quatro fileiras sem esforço e empaca sempre perto do fim.
O enunciado nasceu num texto acadêmico e virou passatempo depois. Leonhard Euler, matemático suíço nascido na Basileia em 1707, apresentou em 1782 à Academia de Ciências de São Petersburgo a memória Recherches sur une nouvelle espèce de quarrés magiques (Pesquisas sobre uma nova espécie de quadrados mágicos), e ali descreveu o arranjo que ficou conhecido como problema dos 36 oficiais.
O desenho cabe num parágrafo. Tome seis regimentos e seis patentes militares. Cada cruzamento de um regimento com uma patente produz um oficial, e os cruzamentos somam 36. Ponha os 36 num quadrado de seis fileiras por seis colunas, de modo que nenhuma fileira e nenhuma coluna repita regimento, e nenhuma fileira e nenhuma coluna repita patente.
Euler escreveu as patentes com letras latinas e os regimentos com letras gregas, e por causa dessa notação o arranjo passou a se chamar quadrado greco-latino (tabuleiro com dois alfabetos sobrepostos). Cada alfabeto, tomado sozinho, forma um quadrado latino (tabuleiro em que cada símbolo aparece uma vez por fileira e uma vez por coluna).
A armadilha mora na palavra nenhuma. Cada uma das duas proibições, sozinha, se cumpre de milhões de maneiras. O tabuleiro só interessa quando a mesma distribuição obedece às duas ao mesmo tempo, e a exigência dupla derruba quase tudo que se constrói por tentativa.
Euler examinou o caso de seis, não achou arranjo nenhum e escreveu que estava convencido da impossibilidade, admitindo que não tinha demonstração para oferecer. A afirmação ficou de pé por 118 anos, até um funcionário público francês varrer o problema inteiro à mão.
Com quatro naipes e quatro figuras de baralho o mesmo arranjo fecha na mesa em poucos minutos, e a versão pequena mostra a mecânica inteira, casa por casa.
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I A resposta de ontem
Com quatro naipes, o quadrado fecha
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Jacques Ozanam, matemático francês nascido em Sainte Olive em 1640, registrou a versão de baralho do problema no livro Récréations mathématiques et physiques (Recreações matemáticas e físicas), em edições ampliadas do século seguinte. O enunciado dele usa 16 cartas e cabe numa mesa de jantar.
Separe do baralho o ás, o rei, a dama e o valete de cada um dos quatro naipes. Monte com as 16 cartas um quadrado de quatro fileiras por quatro colunas em que nenhuma fileira e nenhuma coluna repita naipe, e nenhuma fileira e nenhuma coluna repita figura. As duas proibições são as do tabuleiro de seis, em escala menor.
O arranjo abaixo resolve. Leia por fileira, com P de paus, O de ouros, C de copas e E de espadas. Primeira fileira: ás de paus, rei de ouros, dama de copas, valete de espadas. Segunda: dama de espadas, valete de copas, ás de ouros, rei de paus. Terceira: valete de ouros, dama de paus, rei de espadas, ás de copas. Quarta: rei de copas, ás de espadas, valete de paus, dama de ouros.
Confira uma coluna antes de seguir. Na primeira aparecem ás, dama, valete e rei, sem figura repetida, e os naipes que acompanham são paus, espadas, ouros e copas, sem naipe repetido. As outras três colunas se comportam do mesmo jeito.
Repare no que os dois alfabetos fazem juntos. Olhando só as figuras, o tabuleiro é um quadrado latino. Olhando só os naipes, é outro quadrado latino. Quando os dois se sobrepõem sem que nenhum par figura mais naipe apareça duas vezes, os matemáticos dizem que eles são ortogonais (encaixados sem colisão), e esse encaixe é o coração do problema.
Cada proibição é fácil sozinha e quase impossível acompanhada. O que trava o tabuleiro grande não é a quantidade de casas, e sim a obrigação de os dois alfabetos combinarem casa a casa sem colidir uma vez sequer.
Onde o teste de mesa trava
O primeiro erro é preencher o tabuleiro figura por figura e deixar os naipes para o fim. As figuras fecham sozinhas com folga, os naipes chegam sem espaço e obrigam a desmontar tudo. Os dois alfabetos entram juntos, casa por casa.
O segundo erro é aceitar uma repetição temporária com a promessa de consertar depois. Uma colisão no meio do tabuleiro contamina as fileiras seguintes, e a correção prometida quase nunca chega.
O terceiro erro é achar que o tamanho manda. O quadrado de quatro fecha, o de cinco fecha, o de sete fecha, e o de seis não fecha de jeito nenhum. O padrão do tamanho não segue a intuição, e o enunciado de hoje vive no degrau que quebra.
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II O Enigma do dia
Seis regimentos num tabuleiro que resiste
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Seis regimentos, seis patentes, 36 oficiais, um tabuleiro de seis fileiras por seis colunas, e a regra de que nenhuma fileira e nenhuma coluna repita regimento nem patente. Três perguntas, e as três pedem resposta escrita, não palpite. Primeira: existe arranjo que cumpra as duas proibições, e o que serve de prova? Segunda: o total de quadrados latinos de ordem seis passa de 812 milhões, então como alguém conferiu o caso inteiro sem computador? Terceira: Euler estendeu a suspeita a 10, 14 e 18, e a suspeita continua de pé?
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As regras valem reler. Cada oficial é um par de regimento com patente, e cada par aparece uma vez só no tabuleiro inteiro. As duas proibições valem para fileiras e para colunas. A resposta pedida traz a conclusão, o nome de quem demonstrou, o ano e o caminho usado.
Onde quase todo mundo trava
O primeiro erro é buscar um arranjo mais esperto. O candidato passa noites redistribuindo patentes e conclui que está perto, quando o problema pede uma prova de inexistência, e essa prova nunca sai de tentativa bem sucedida.
O segundo erro é confundir ausência de exemplo com impossibilidade. Ninguém ter achado não demonstra nada sozinho, e Euler foi honesto ao registrar a própria falta de demonstração. O passo que faltava exigia percorrer o espaço inteiro de tabuleiros possíveis, com método.
O terceiro erro é desistir diante dos 812.851.200 quadrados latinos de ordem seis. O número assusta e some quando se percebe que a maioria desses tabuleiros é cópia disfarçada de outro: renomear regimentos ou reordenar fileiras produz um tabuleiro novo na aparência e idêntico na estrutura.
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Problema que pede impossibilidade se resolve cortando o espaço de busca antes de buscar. Agrupe os casos equivalentes, escolha um representante por grupo e confira só os representantes. A prova nasce do agrupamento, não da paciência.
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Responda as três com prova. Escreva a conclusão, o nome e o ano de quem fechou a demonstração, e diga o que aconteceu com a suspeita de Euler sobre 10, 14 e 18.
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