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Enigma do Dia   Enigma do Dia
ED 024

Oito rainhas e as vinte que Gauss não contou

Max Bezzel propôs o desafio na Berliner Schachzeitung em 1848, e a primeira contagem de Gauss parou vinte arranjos antes do fim.

Oito rainhas brancas espalhadas por um tabuleiro de xadrez sem se atacarem.

Oito rainhas espalhadas num tabuleiro de xadrez

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Em 1848, a revista de xadrez Berliner Schachzeitung imprimiu uma pergunta de três linhas na seção de problemas, assinada por Max Bezzel, enxadrista de Ansbach. A rainha, no xadrez, anda em linha reta pela coluna, pela linha e pelas duas diagonais, sem limite de casas. Cabem oito delas num tabuleiro de sessenta e quatro casas sem que nenhuma ameace outra?

A pergunta não pedia partida, não pedia estratégia e não tinha adversário. Pedia uma posição parada, sem lance seguinte, e uma contagem: quantas posições assim existem. Um problema de xadrez sem xadrez dentro, publicado numa revista de xadrez, e por isso mesmo passou dois anos parado na página sem resposta publicada.

Em 1850 a resposta apareceu, e apareceu errada. Franz Nauck publicou primeiro uma lista de sessenta arranjos, corrigiu logo depois para noventa e dois, e o número maior é o que ficou de pé até hoje. A correção não veio de uma ideia nova, veio de alguém varrer o tabuleiro numa ordem que não deixava buraco.

O caso ganhou peso quando Carl Friedrich Gauss se interessou pela pergunta e passou a trocar cartas sobre ela com o astrônomo Heinrich Christian Schumacher. A primeira contagem que Gauss fez parou em setenta e dois, vinte arranjos abaixo do total, e ele mesmo corrigiu depois de refazer a varredura. O maior calculista do século errou por vinte na primeira passada.

O erro dele diz exatamente o que o problema cobra. Achar uma posição válida é fácil, e qualquer pessoa com um tabuleiro e paciência chega a uma em alguns minutos. Difícil é garantir que a lista fechou, porque escolher oito casas entre sessenta e quatro dá mais de quatro bilhões de combinações, e conferir uma por uma na mão não é uma opção que exista.

Antes do tabuleiro, ficam de pé dois envelopes fechados sobre a mesa, e a conta que manda trocar de um para o outro sem parar nunca.

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I  A resposta de ontem

O defeito mora na letra que troca de valor no meio da conta

A troca não compensa, e a média de cento e vinte e cinco reais não descreve mesa nenhuma que exista. O furo está numa única linha da conta popular, no lugar em que a mesma letra aparece duas vezes valendo quantias diferentes.

Escreva a mesa antes de escrever a conta. Existe um par de envelopes só, com uma quantia menor e o dobro dela, e essas duas quantias ficaram decididas antes de você encostar a mão em qualquer um dos dois. Chame a menor de x, e a mesa inteira é x e 2x, nada além.

Agora percorra os dois casos possíveis. Se a sua mão pegou o envelope menor, você tem x e a troca lhe dá mais x. Se pegou o maior, você tem 2x e a troca lhe tira x. Ganho e perda têm o mesmo tamanho em reais, cada caso tem a mesma chance, e a média da troca é zero.

A conta popular faz outra coisa. Ela fixa cem reais como o valor da sua mão e, na frase seguinte, imagina duas mesas diferentes ao mesmo tempo: uma mesa de cinquenta e cem, e uma mesa de cem e duzentos. Depois soma um resultado de cada mesa e tira a média. As duas mesas não podem coexistir, e a média entre elas não pertence a nenhuma das duas.

O mesmo defeito aparece na fórmula. Quem escreve metade do dobro mais metade da metade está usando a letra da sua quantia como se ela fosse a menor numa parcela e a maior na outra parcela, dentro da mesma soma. Trocar o valor de uma letra no meio de uma linha invalida a linha inteira, e nenhum argumento posterior conserta.

A troca só passaria a compensar se abrir o envelope trouxesse alguma informação sobre qual mesa está na sua frente, e cem reais sozinhos, sem nada mais combinado, não trazem informação nenhuma.

Existe um cenário em que a informação aparece, e ele vale a pena olhar. Se você souber de antemão que quem montou a mesa nunca coloca mais de cento e cinquenta reais no envelope maior, então ver cem na sua mão diz que a sua mão tem o maior, e a troca passa a ser ruim com certeza. Distribuição conhecida muda a decisão, e é ela que faltava na conta original.

O enigma de hoje troca envelope por tabuleiro e vira a exigência do avesso. Lá o trabalho era achar o furo de uma conta curta. Aqui a conta é honesta desde o começo, e o trabalho é provar que uma lista de posições não deixou nenhuma de fora.

 
 

II  O Enigma do dia

Oito rainhas, sessenta e quatro casas e uma lista para fechar

Um tabuleiro de xadrez tem oito colunas e oito linhas. A rainha ataca em linha reta pela linha, pela coluna e pelas duas diagonais, sem limite de casas. Coloque oito rainhas no tabuleiro sem que nenhuma ameace outra, e diga quantos arranjos diferentes existem ao todo, contando como distintos os que giram ou espelham uns nos outros.

As regras não escondem nada. O tabuleiro é o comum, de oito por oito, as oito rainhas são iguais entre si, não existe peça de outro tipo em campo e não existe lance a jogar depois. A posição precisa apenas ficar de pé sem uma rainha vendo a outra.

Duas coisas para fixar antes de começar. Primeira: uma rainha ameaça outra a qualquer distância, então duas rainhas na mesma diagonal se atacam mesmo separadas por seis casas vazias. Segunda: a pergunta pede as duas entregas, um arranjo concreto e o total, e o total é a parte que dá trabalho.

Onde quase todo mundo trava

O erro mais comum é achar uma posição válida, comemorar e parar. A primeira solução sai por tentativa e erro em poucos minutos, e ela não responde nada da pergunta principal. Uma lista de uma linha não prova que existem mais noventa e uma, e muito menos que não existe uma nonagésima terceira.

O segundo erro é contar arranjos girados e espelhados como se fossem o mesmo. Quem faz isso chega a doze, que é o número de soluções realmente diferentes quando se ignora rotação e reflexão do tabuleiro. Doze e noventa e dois descrevem a mesma realidade sob duas regras de contagem, e a pergunta de hoje pede a segunda.

O terceiro erro é a força bruta ingênua. Escolher oito casas entre sessenta e quatro dá quatro bilhões e quatrocentos e vinte e seis milhões de combinações, e testar isso na mão levaria séculos. Sem uma restrição que corte o campo logo no começo, não existe caminho.

A pergunta difícil não é achar um arranjo, é garantir que a lista fechou. Um arranjo qualquer sai no tabuleiro em cinco minutos, e a lista completa exige uma ordem de busca que nunca repita uma posição e nunca pule nenhuma.

Repare no que a restrição certa faz com o tamanho do problema. Duas rainhas na mesma coluna se atacam, logo cada uma das oito colunas tem exatamente uma rainha. Essa observação sozinha derruba quatro bilhões de combinações para dezesseis milhões e setecentos mil, e a próxima observação derruba de novo, para menos de quarenta e um mil.

A pergunta é essa, e ela pede o caminho junto com o número. Escreva um arranjo válido em oito algarismos, diga quantos arranjos existem ao todo com giros e espelhos contados à parte, e mostre a ordem de busca que garante que a sua lista não deixou nenhuma posição para trás.

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III  Sequência

Uma coluna por rainha e a poda que economiza a busca

O material é uma folha quadriculada, um lápis e um quadrado de oito por oito desenhado à mão. Oito moedas em cima do quadrado ajudam a conferir no fim, mas comece pelos números: a busca escrita é mais rápida e não perde o rastro do que já foi testado.

A notação faz metade do serviço. Como cada coluna tem uma rainha só, um arranjo inteiro cabe em oito algarismos, um por coluna, dizendo em que linha aquela rainha está. O arranjo 15863724, por exemplo, descreve uma posição completa, e conferir uma posição vira conferir uma sequência de oito números.

1. Corte pelas colunas. Escreva a solução como oito algarismos, um por coluna, com valores de 1 a 8. Só essa decisão troca as quatro bilhões e quatrocentas e vinte e seis milhões de escolhas de casas por dezesseis milhões e setecentas e setenta e sete mil sequências, sem perder uma única posição válida.

2. Corte pelas linhas. Duas rainhas na mesma linha se atacam, então os oito algarismos precisam ser todos diferentes: a sequência é uma permutação dos números de 1 a 8. Sobram quarenta mil trezentas e vinte candidatas, e agora a conta cabe numa varredura organizada.

3. Corte pelas diagonais, coluna por coluna. Duas rainhas nas posições de coluna i e j se atacam na diagonal quando a diferença das linhas é igual à diferença das colunas. Escolha a rainha da coluna 1, depois a da coluna 2, e assim por diante: na primeira colisão, apague a última escolhida e tente o próximo valor.

"O problema das oito rainhas admite noventa e duas soluções, se as posições obtidas por rotação ou reflexão do tabuleiro forem contadas como distintas."

Carl Friedrich Gauss, carta a Heinrich Christian Schumacher, 1850.

A frase acima resolve o número e deixa o método de fora, e repare no tamanho do silêncio. Ela não diz em que ordem varrer as colunas, não diz onde interromper um ramo que já morreu e não diz como saber que a varredura terminou. O silêncio é justamente onde a sua tabela entra.

Se travar, encolha o tabuleiro antes de brigar com o grande. No tabuleiro de quatro por quatro existem duas soluções, no de cinco por cinco existem dez, no de seis por seis existem quatro, e no de sete por sete existem quarenta.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes de a solução aparecer, e o placar zera no dia em que você espia fora da hora. Ninguém confere, e um placar sem plateia é o único que não se falsifica.

Um aviso de jogo limpo. Achar o número pronto na internet não vale ponto: o que conta é escrever um arranjo válido com a própria mão e descrever a ordem de busca que fecharia a lista inteira, com os três cortes anotados ao lado.

A charada dos envelopes pune quem confia na média, e a do tabuleiro pune quem confia na primeira tentativa que dá certo. Uma pede que você olhe duas vezes para a mesma letra, a outra pede que você prove que não sobrou nada.

"Quantas vezes você parou na primeira resposta que funcionou sem perguntar quantas outras havia?"

 
 
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Na primeira vez que contou os arranjos das oito rainhas, em quantas soluções Gauss parou antes de refazer a varredura?

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