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O mate de Dilaram e as duas torres entregues

Uma posição de xatranje guardada desde o século X só fecha com as duas torres entregues, e o elefante que salta duas casas decide a conta.

Tabuleiro de xatranje com torres, cavalo e elefante num manuscrito árabe.

A posição que salvou Dilaram

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Por que alguém entregaria as duas peças mais fortes do tabuleiro de uma vez? Porque, nesta posição, só sem elas o rei inimigo fica preso, e quem fecha a rede é a peça mais fraca do jogo.

O tabuleiro tem 64 casas, como o de hoje, mas as peças são outras. A rainha não existe: no lugar dela anda o conselheiro, que dá um passo só na diagonal. O bispo também não existe: no lugar dele salta o elefante, que pula exatas duas casas na diagonal, nem uma a mais, nem uma a menos.

Faça a conta do elefante. De uma casa no meio do tabuleiro, ele alcança no máximo quatro destinos. Em toda a partida, cada elefante só pisa em 8 das 64 casas. É a peça mais curta do jogo, e por isso ninguém olha para ela na hora do ataque.

As torres, ao contrário, já correm as colunas inteiras, como hoje. Num tabuleiro sem rainha, são elas que dão o golpe final quase sempre. Entregar uma é risco. Entregar as duas parece desistência.

O jogo se chama xatranje, a versão árabe do xadrez, levada da Pérsia para Bagdá e copiada em tratados de mestres entre os séculos IX e X. Nesses tratados, os jogadores guardavam posições finais com solução forçada, chamadas mansubas, um antepassado dos problemas de xadrez de jornal.

Uma dessas posições ganhou nome de mulher. A tradição conta que um nobre, perdendo a fortuna no tabuleiro, apostou a própria esposa, Dilaram. Com a partida no fim, ela teria visto a saída e gritado ao marido para entregar as duas torres e guardá-la.

A historinha é lenda de corte, sem prova. A posição, não: ela aparece em manuscritos árabes e persas copiados por séculos, e a solução funciona lance por lance.

Abaixo, primeiro como o xatranje chegou aos manuscritos. Depois, a posição e as pistas para você resolver no papel. Por último, a sequência inteira e a conta do elefante.

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I  A resposta de ontem

Os tratados de Bagdá

A resposta de ontem

Quem atravessa o rio no problema 18 de Alcuíno?

Um homem com um lobo, uma cabra e um maço de couves, num barco que só leva ele e mais um. Deixados a sós, o lobo come a cabra e a cabra come as couves. A saída do manuscrito leva a cabra primeiro, traz a cabra de volta no meio do caminho e fecha em sete travessias.

O xatranje vem do chaturanga, jogo indiano de guerra com quatro armas: infantaria, cavalaria, elefantes e carros. Da Índia ele passou à Pérsia, onde virou chatrang, e da Pérsia aos árabes depois da conquista do século VII.

Em Bagdá, sob os califas abássidas, o jogo ganhou mestres de ofício. Dois nomes ficaram nos livros: al-Adli, ativo no século IX, e as-Suli, o melhor jogador da corte no começo do século X, famoso por jogar sem olhar o tabuleiro.

As-Suli também ensinava. Entre os alunos dele estavam filhos de califas, e a fama dele durou tanto que, séculos depois, jogar como as-Suli ainda era elogio comum entre jogadores árabes.

Os dois escreveram tratados sobre aberturas, finais e mansubas. Os originais se perderam. O que chegou até nós são cópias e coletâneas posteriores, algumas feitas séculos depois, que juntam posições atribuídas a eles e a outros mestres.

As peças do xatranje

Para ler as mansubas, vale saber como cada peça anda:

• Rei: uma casa em qualquer direção, como hoje.

• Torre: a coluna ou a fileira inteira, como hoje.

• Cavalo: em L, como hoje.

• Conselheiro: uma casa na diagonal.

• Elefante: salta duas casas na diagonal, pulando a casa do meio mesmo ocupada.

• Peão: uma casa para a frente, sem o passo duplo inicial.

Com peças tão curtas, a partida era lenta, e o mate rápido era raro. Por isso as mansubas valiam tanto: mostravam combinações que o jogo comum quase nunca oferecia.

O historiador que organizou esse acervo no Ocidente foi o inglês Harold Murray. No livro A History of Chess (1913), ele catalogou centenas de mansubas a partir dos manuscritos árabes e registrou as versões do mate de Dilaram, com a lenda junto.

O trabalho de Murray pesa até hoje porque muitos manuscritos estão espalhados em bibliotecas diferentes, de Istambul a Londres, e poucos foram traduzidos. Quem estuda mansubas costuma começar pelas tabelas dele.

No xatranje, a peça mais fraca do jogo cobre casas que nenhuma outra alcança, e o mate de Dilaram depende dela.

A lenda mudou de dono conforme a cópia. Em algumas versões o jogador é um vizir, em outras um nobre de Bagdá. O nome da esposa se mantém: Dilaram, que em persa quer dizer algo como calmante do coração.

 
 

II  O Enigma do dia

Duas torres para salvar uma aposta

As brancas jogam e dão mate em quatro lances. As pretas ameaçam dar mate no lance seguinte, então cada lance branco precisa ser xeque. Quais peças as brancas entregam, e qual dá o golpe final?

As versões publicadas variam na posição exata, mas a ideia se repete em todas. As brancas têm duas torres, um cavalo e um elefante perto do rei preto, encostado no canto. As pretas têm material de sobra e um mate pronto contra o rei branco.

A frase atribuída a Dilaram resume o plano:

“Sacrifica as duas torres e não sacrifiques a mim” (fala atribuída a Dilaram, registrada por Harold Murray em A History of Chess, 1913).

Para começar, anote as condições no papel:

• Lances: quatro, todos de xeque.

• Peças brancas no ataque: duas torres, um cavalo, um elefante.

• Rei preto: no canto, com casas de fuga bloqueadas pelas próprias peças.

• Elefante: salta exatas duas casas na diagonal.

A primeira pista: com o rei no canto, uma torre que dá xeque na fileira do fundo pode ser capturada pelo próprio rei. A captura puxa o rei para uma casa pior.

A segunda pista: o elefante e uma torre na mesma coluna formam uma bateria. Quando o elefante salta, a torre de trás dá xeque descoberto sem gastar lance.

A terceira pista: a segunda torre também se oferece. Depois dela, o rei preto fica de novo no canto, e só o cavalo tem como alcançá-lo.

A quarta pista: o cavalo dá o xeque final, mas precisa que a casa de fuga do rei esteja coberta. Confira qual das peças restantes alcança essa casa.

Onde a conta escorrega

O primeiro escorregão é pensar como no xadrez de hoje. Um bispo moderno cobre a diagonal inteira; o elefante cobre uma casa só em cada direção, a duas de distância.

O segundo é poupar uma torre. Com uma delas guardada, o rei preto ganha uma casa de respiro, e as pretas dão o mate delas primeiro.

O terceiro é usar lance quieto. Sem xeque, as pretas jogam a ameaça e a partida acaba contra as brancas.

Quem joga com as torres na mão perde; quem as entrega na ordem certa ganha com o cavalo e o elefante.

Responda por escrito: em que lance sai cada torre, quando o elefante salta e qual peça dá o mate.

 

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III  Sequência

Quatro xeques e um salto

Na versão mais citada, a sequência anda em quatro lances, todos com xeque:

1. A primeira torre dá xeque na coluna do rei, encostada no canto. O rei preto não tem outra saída e captura a torre.

2. O elefante salta duas casas na diagonal e descobre a segunda torre atrás dele. Xeque descoberto, e o rei volta uma casa.

3. A segunda torre entra no canto e dá xeque de novo. O rei captura a segunda torre.

4. O cavalo salta para a casa vizinha ao rei e dá xeque. A única fuga está sob o alcance do elefante. Mate.

As brancas terminam com menos material do que começaram. Saem duas torres, ficam um cavalo e um elefante, as duas peças que no xatranje valiam menos que uma torre sozinha.

A conta do elefante

O segredo está no salto. Depois do lance 2, o elefante para numa casa de onde alcança, duas casas adiante na diagonal, justamente a fuga que sobraria ao rei no lance 4. Um bispo moderno faria o mesmo de longe; o elefante precisa estar na distância exata.

Por isso o salto tem dupla função. Abre a coluna para a torre de trás e, no mesmo movimento, estaciona o elefante na única casa útil para o mate. Um salto para a outra diagonal descobriria o xeque igual e perderia o mate.

Conte as casas possíveis: do ponto de partida, o elefante tem no máximo quatro saltos. Um ou dois saem do tabuleiro ou caem em casa ocupada. Dos que sobram, só um cobre a fuga certa.

O mate não sai da força das torres: sai da distância fixa do elefante, duas casas, nem mais nem menos.

A combinação sobreviveu à troca de regras. No xadrez moderno, o padrão de duas torres entregues no canto seguidas de mate de cavalo virou tema de manual, e o nome Dilaram continua grudado nele.

A mesma ideia aparece em outras mansubas da coleção: material entregue para abrir linhas, e a peça curta fechando a rede. Os mestres de Bagdá sabiam que, num jogo sem rainha, o mate rápido nasce de sacrifício.

“Qual peça cobre a fuga no último lance?”

O elefante, parado duas casas na diagonal da casa de fuga desde o salto do lance 2.

Teste hoje: monte a posição num tabuleiro comum, com um bispo no papel do elefante, e só deixe ele saltar duas casas. Jogue os quatro lances e cronometre. Abaixo de 10 minutos, você achou sozinho a ordem das torres; no lance 4, conte as casas que o elefante cobre: no máximo quatro.

 
 
Quiz da edição

No mate de Dilaram, depois que as duas torres caem capturadas pelo próprio rei preto, qual peça entrega o xeque final?

AO conselheiro
BA torre restante
CO cavalo
DO elefante

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