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Enigma do Dia   Enigma do Dia
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O hotel cheio que sempre abre mais um quarto

Num hotel de infinitos quartos, cada hóspede anda uma porta e o quarto 1 fica livre, sem ninguém dormir no corredor.

Corredor de hotel antigo com portas numeradas que seguem sem fim.

Cada hóspede anda uma porta, o quarto 1 fica vago

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Cabe mais um hóspede num hotel onde todos os quartos estão ocupados? Cabe, desde que o hotel tenha infinitos quartos, e a manobra que abre a vaga cabe numa frase do gerente.

Imagine o prédio. Um corredor sem parede final, portas numeradas 1, 2, 3 e assim sem parar. Em cada quarto dorme um hóspede, e a placa da recepção diz "lotado". Nenhuma porta do corredor está livre.

Chega um viajante de mala na mão e pede cama. Num hotel comum, a conversa acaba ali: cem quartos, cem hóspedes, nenhuma vaga. O gerente deste hotel pega o microfone e dá uma ordem só, usando a letra n (qualquer porta do corredor, seja a 3 ou a 3 milhões): quem está no quarto n muda para o quarto n+1.

O hóspede do 1 vai pro 2. O do 2 vai pro 3. O do 500 vai pro 501. Ninguém fica sem cama, porque não existe último quarto de onde alguém cairia pra fora. Cada pessoa tem uma porta seguinte esperando por ela.

Quando a mudança termina, o quarto 1 está vazio. O viajante entra, o hotel continua cheio e ninguém dormiu no corredor. A lista de hóspedes cresceu uma linha, e a placa "lotado" segue verdadeira.

A cena parece trapaça porque a intuição foi treinada com conjuntos finitos. Com cem quartos, "todos ocupados" e "cabe mais um" se contradizem. Com infinitos quartos, as duas frases convivem, e cai a crença de que cheio quer dizer sem vaga.

O truque tem uma condição dura. A ordem precisa valer para todos os quartos ao mesmo tempo, e cada hóspede anda uma porta só. Se o gerente mandasse todo mundo para "o último quarto livre", a ordem não faria sentido, porque esse quarto não existe em corredor sem fim.

A seção seguinte conta quem inventou o hotel, em que sala a história apareceu primeiro e por que a manobra do n+1 prova que um infinito pode ganhar um elemento sem ficar maior.

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I  A resposta de ontem

Uma porta a mais para cada hóspede

O hotel nasceu numa sala de aula. David Hilbert, matemático alemão da Universidade de Göttingen, usou a imagem no inverno de 1924 para 1925, numa série de palestras sobre o infinito. As notas ficaram quase noventa anos guardadas em arquivo e só saíram impressas em 2013, no volume das lições de Hilbert sobre aritmética e lógica organizado por William Ewald e Wilfried Sieg.

Quem espalhou a história foi George Gamow, físico nascido em Odessa e radicado nos Estados Unidos, no livro One Two Three... Infinity (Um, Dois, Três... Infinito), de 1947. Gamow recontou o hotel para leigos, e dali a cena passou para manuais, aulas de cálculo e palestras de divulgação.

A resposta do enigma cabe numa ideia: correspondência um a um (cada elemento de um grupo ligado a exatamente um elemento do outro, sem sobra e sem falta). Antes da mudança, os hóspedes ocupavam as portas 1, 2, 3 em diante. Depois, ocupam as portas 2, 3, 4 em diante. Cada hóspede ganhou uma porta, e cada porta a partir da 2 ganhou um hóspede.

Essa ligação perfeita mostra que "todas as portas" e "todas as portas menos a primeira" têm o mesmo tamanho. O conjunto perdeu um elemento e continuou do mesmo tamanho. Num conjunto finito, tirar um item sempre diminui a contagem; num infinito, pode não diminuir.

Um conjunto infinito cabe inteiro dentro de uma parte de si mesmo. Daí o hotel lotado sempre libera o quarto 1: os hóspedes cabem nas portas de 2 em diante sem ninguém sobrar.

Por que a intuição resiste

O incômodo é antigo. Galileu Galilei anotou em Duas Novas Ciências, de 1638, que os quadrados perfeitos (1, 4, 9, 16) parecem ser poucos entre os números inteiros, e mesmo assim cada inteiro tem o seu quadrado. Galileu concluiu que palavras como "maior" e "menor" não servem para quantidades infinitas e largou o assunto.

Georg Cantor, matemático alemão da Universidade de Halle, retomou a questão a partir de 1874. Ele chamou de enumerável (que dá para pôr numa fila numerada, 1, 2, 3) todo conjunto com tantos elementos quanto os inteiros positivos, e deu a esse tamanho um símbolo, álefe-zero (a primeira letra hebraica com um zero ao pé).

Na conta de Cantor, álefe-zero mais um continua sendo álefe-zero. O hotel de Hilbert é essa soma vestida de recepção: os hóspedes antigos formam um conjunto enumerável, o viajante é o "mais um", e o hotel inteiro continua enumerável depois da chegada.

Hilbert sabia da resistência que a ideia provocava entre colegas. Leopold Kronecker, professor de Berlim, rejeitava o infinito completo como objeto de estudo. As palestras de 1924 defendiam o oposto: tratar o infinito com regras próprias, sem forçar nele a contabilidade dos hotéis de verdade.

 
 

II  O Enigma do dia

O ônibus sem fim na porta do hotel

Três perguntas sobre um único hotel lotado. Primeira: estaciona na porta um ônibus com infinitos passageiros, numerados 1, 2, 3 em diante. Com uma única ordem pelo microfone, como o gerente hospeda todos? Segunda: chegam infinitos ônibus, cada um com infinitos passageiros. Que ordem abre vaga para todo mundo? Terceira: por que repetir a manobra do n+1 uma vez para cada passageiro não resolve o ônibus?

As regras seguem as da recepção. Cada quarto recebe no máximo um hóspede, ninguém divide cama, ninguém espera no saguão, e a ordem vale para todos os hóspedes no mesmo instante. A resposta pedida é a regra escrita, do tipo "quem está no quarto n vai para o quarto tal", mais o destino de cada passageiro recém-chegado.

Uma pista para a primeira pergunta: pense em como esvaziar metade do corredor sem expulsar ninguém. Para a segunda, lembre que dois números primos diferentes (inteiros divisíveis só por 1 e por eles mesmos) nunca geram a mesma potência. Para a terceira, acompanhe o hóspede do quarto 1 e conte quantas vezes ele troca de porta.

Três tropeços comuns

O primeiro tropeço é mandar o hóspede do quarto n para o quarto n mais infinito. Infinito não é número de porta, e a ordem precisa apontar um quarto real, com placa na parede, para cada pessoa.

O segundo é abrir vagas uma de cada vez. Liberar o quarto 1, depois o 1 de novo, depois o 1 de novo, gasta uma mudança por passageiro, e o ônibus tem passageiros sem conta. Uma fila de ordens que nunca termina não hospeda ninguém ao cair da noite.

O terceiro é achar que cada ônibus a mais exige um hotel maior. O prédio não muda. O que muda é a regra de endereçamento, e uma regra bem escolhida encaixa infinitos grupos infinitos no mesmo corredor.

Encher um infinito não fecha a porta. A vaga aparece quando a regra de mudança deixa um pedaço inteiro do corredor sem ninguém.

Responda as três por escrito, com a regra completa. A ordem do ônibus, a ordem dos infinitos ônibus e o motivo de a manobra repetida falhar.

 

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III  Sequência

Pares, primos e potências

O material é papel, lápis e cinco minutos. O procedimento abaixo resolve as três perguntas e qualquer variação do hotel com hóspedes enumeráveis.

1. Escreva a regra de mudança dos hóspedes antigos. Ela precisa mandar cada porta para uma porta diferente, sem duas pessoas no mesmo quarto.

2. Liste as portas que a regra deixa vazias. Se a lista for infinita e enumerável, o hotel já tem espaço para um grupo infinito.

3. Escreva a regra dos recém-chegados apontando só para portas da lista vazia. Confira se dois passageiros nunca caem na mesma porta.

4. Confira o tempo. A mudança toda precisa acontecer numa ordem só, dita uma vez, com cada pessoa andando uma distância finita.

"Ninguém nos expulsará do paraíso que Cantor criou para nós."

David Hilbert, Sobre o Infinito (Über das Unendliche), Mathematische Annalen, 1926.

As três respostas saem da mesma lista. No ônibus, o gerente manda quem está no quarto n para o quarto 2n: os antigos ocupam as portas pares e as ímpares esvaziam. O passageiro k do ônibus entra no quarto 2k menos 1, e o passageiro 1 fica com a porta 1, o 2 com a 3, o 3 com a 5.

Nos infinitos ônibus, o hóspede do quarto n muda para o quarto 2 elevado a n. O passageiro k do primeiro ônibus vai para 3 elevado a k, o do segundo para 5 elevado a k, o do terceiro para 7 elevado a k, sempre com o primo seguinte. Euclides provou nos Elementos, por volta de 300 a.C., a base do que hoje se chama fatoração única: cada inteiro se decompõe em primos de um jeito só. Duas potências de primos diferentes nunca coincidem, e portas como 6 e 10 sobram vazias.

Na terceira, o hóspede do quarto 1 trocaria de porta uma vez por passageiro, sem parar nunca. Ele jamais desfaria a mala, e o ônibus nunca terminaria de descer. A manobra do n+1 funciona para um viajante porque termina numa ordem só.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes de conferir a solução, e o placar zera quando você espia fora da hora.

A ideia sai do hotel e entra no computador. Toda tabela de endereços que numera itens sem limite fixo, como a lista de pedidos de uma loja virtual, usa a mesma lógica de Cantor: sempre existe uma próxima posição livre, porque a numeração não tem último termo.

Quando uma conta com infinito parece absurda, troque a pergunta "cabe?" pela pergunta "existe uma regra que liga cada um a uma porta?". Se a regra existe, cabe.

"Se um hotel lotado ainda recebe um ônibus sem fim, o que a placa de lotado informa ao viajante?"

Teste hoje: numa folha, escreva os números de 1 a 20 numa coluna e o dobro de cada um na coluna ao lado, marcando no relógio do celular quanto tempo leva. Depois conte quantos ímpares entre 1 e 40 não aparecem na segunda coluna. Espere encontrar exatamente 20 portas vagas em menos de dois minutos, a mesma quantidade de hóspedes que você mudou de lugar.

 
 
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Quem foi o responsável por espalhar a história do Hotel de Hilbert entre o público leigo, através de um livro de divulgação científica?

ADavid Hilbert, nas palestras de 1924 para 1925
BGeorg Cantor, criador da teoria dos conjuntos infinitos
CGeorge Gamow, no livro Um, Dois, Três... Infinito
DLeopold Kronecker, professor de Berlim

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