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O enigma da Esfinge ficou fora do Édipo Rei

Sófocles cita a Esfinge e a vitória de Édipo, mas o verso dos pés chegou por Asclépiades de Trágilo e Ateneu.

Édipo sentado diante da Esfinge pousada numa coluna, em pintura de taça grega.

Édipo diante da Esfinge, numa taça grega

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Em qual verso do Édipo Rei a Esfinge pergunta pelo ser de quatro, dois e três pés? Em nenhum. Sófocles põe a Esfinge na peça, põe Édipo como o homem que a venceu, e deixa a charada inteira de fora.

A tragédia estreou em Atenas por volta de 429 a.C. e tem pouco mais de 1.500 versos. A Esfinge aparece em poucos deles, sempre como lembrança: a cantora cruel que cobrava tributo de Tebas, a fera vencida antes de a ação começar.

O público ateniense dispensava a pergunta. Conhecia o mito desde criança, como hoje ninguém precisa explicar a maçã da Branca de Neve. Sófocles economizou o enigma porque a plateia já o trazia de casa.

O problema veio depois. A peça virou o texto mais estudado da tragédia grega, e a charada famosa grudou nela. Livros escolares, filmes e palestras repetem a cena como se Édipo, no palco, ouvisse a frase sobre a manhã, a tarde e a noite.

Essa cena não existe no original. O enunciado em verso que sobreviveu vem de um escritor grego do século IV a.C., Asclépiades de Trágilo, copiado séculos mais tarde num livro de banquete de Ateneu de Náucratis. E a moldura das horas do dia, a parte mais lembrada, nem nesse verso aparece.

Há um detalhe ainda mais curioso. Uma taça pintada em Atenas por volta de 470 a.C., hoje nos Museus Vaticanos, mostra Édipo sentado diante da Esfinge, e entre os dois corre um fragmento de palavras gregas: “e de três pés”. O enigma circulava antes da peça, por escrito e em imagem; Sófocles só preferiu não repeti-lo.

Na primeira faixa abaixo, o caminho da charada até o palco e para fora dele. Na segunda, o verso completo de Asclépiades, com uma pista escondida para você resolver sem a moldura das horas. Na terceira, a solução e o que a peça de Sófocles guarda no lugar da pergunta.

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I  A resposta de ontem

A cantora cruel de Tebas

O Édipo Rei, tragédia de Sófocles encenada em Atenas por volta de 429 a.C., começa com Tebas devastada por uma peste. Édipo subiu ao trono anos antes, ao livrar a cidade da Esfinge, e o sacerdote lembra o feito logo na abertura: o rei libertou Tebas do tributo pago à cantora cruel.

A palavra grega usada ali, aoidós (cantora, a que entoa versos), mostra como os gregos imaginavam a criatura: alguém que cantava charadas em verso, como um oráculo. No verso 130, Creonte a chama de poikilōidós (de canto enfeitado, cheio de voltas), outro adjetivo sobre a forma do enigma, nunca sobre o conteúdo.

A referência mais longa vem na briga com o adivinho Tirésias. Édipo, irritado, cobra dele o silêncio na hora do perigo.

“Quando a cadela cantora estava aqui, por que não disseste a palavra capaz de libertar estes cidadãos? O enigma não cabia ao primeiro que passasse; pedia arte de adivinho” (Sófocles, Édipo Rei, c. 429 a.C., versos 391 a 394, tradução livre).

Logo depois, Édipo se gaba de ter vencido pela inteligência, sem pássaros nem sinais dos deuses. A peça registra uma pergunta e uma resposta, mas não reproduz nenhuma das duas.

Antes do palco

O mito é mais velho do que a peça. Hesíodo, na Teogonia, por volta de 700 a.C., já cita a Fix (grafia antiga de Esfinge), ruína dos cadmeus, isto é, dos tebanos, descendentes de Cadmo. Ali ainda não há charada nenhuma: a fera só devora.

A charada entra no registro pela pintura. A taça atribuída ao chamado Pintor de Édipo, feita em Atenas por volta de 470 a.C. e guardada no Museu Gregoriano Etrusco, no Vaticano, mostra a Esfinge sobre uma coluna e Édipo sentado, de chapéu de viajante. Perto da boca dela, a inscrição grega kai tri[pon] (“e de três pés”).

O enigma já estava pintado numa taça quatro décadas antes de Sófocles escrever a peça, e mesmo assim ele o deixou fora do texto.

O verso inteiro só aparece por escrito no século IV a.C., nos Tragodoumena (Assuntos das tragédias), de Asclépiades de Trágilo, um resumo dos enredos encenados em Atenas. A obra se perdeu; o verso sobreviveu porque Ateneu de Náucratis o copiou por volta de 200 d.C. no Deipnosofistas (O banquete dos sábios), um livro de conversas à mesa.

A charada reaparece em resumos antigos anexados às Fenícias de Eurípides e numa coletânea bizantina de epigramas, a Antologia Palatina. Todas as cópias são posteriores ao Édipo Rei, e nenhuma delas fala em manhã, tarde ou noite.

 
 

II  O Enigma do dia

Os pés no verso de Asclépiades

Há sobre a terra um ser de dois pés e de quatro, de voz única, e de três pés. Sozinho, muda de forma entre os seres que andam na terra, voam no ar e nadam no mar. Quando anda apoiado em mais pés, seus membros têm a menor rapidez. Qual é o ser, e em qual fase da vida ele anda mais devagar?

O enunciado acima segue o hexâmetro (verso de seis medidas, o mesmo da Ilíada) registrado por Asclépiades e copiado por Ateneu, numa tradução próxima do grego. Não há relógio nele: nem manhã, nem meio-dia, nem anoitecer.

Sem as horas, a charada fica mais difícil. A versão popular entrega a ordem da vida de bandeja; o verso antigo embaralha os pés e obriga a pensar na velocidade.

Os gregos chamavam esse gênero de aînigma (fala escura, dita por rodeios). A graça estava em descrever um ser comum com traços de monstro, até o ouvinte reconhecer o familiar por trás do estranho.

Para começar, separe os dados:

• Pés citados: dois, quatro e três.

• Voz: uma só, sempre igual.

• Lugar: entre os que andam, voam e nadam.

• Velocidade: mais pés, menos rapidez.

A primeira pista: a ordem do verso não é a ordem da vida. Dois aparece antes de quatro, e quatro antes de três; reorganize.

A segunda pista: a voz única separa o ser de quem troca de corpo, como a lagarta e a borboleta. O ser da charada muda o jeito de andar, mas fala do mesmo jeito a vida inteira.

A terceira pista: o terceiro pé não nasce do corpo. Pense no apoio carregado na mão.

A quarta pista: a regra da velocidade vale para o maior número de pés. Descubra em qual idade o andar tem quatro apoios e por qual motivo esse andar rende tão pouco.

Onde a resposta escorrega

O primeiro escorregão é responder pela versão das horas e parar ali. O verso pede também a fase mais lenta, e a moldura do relógio não diz nada sobre velocidade.

O segundo é achar o andar de três pés o mais lento de todos. A bengala parece o passo mais penoso, mas o verso conta apoios, e o maior número deles aparece em outra idade.

O terceiro é tratar a voz única como enfeite. O detalhe exclui os animais que trocam de corpo e de som, e deixa um candidato só entre os seres da terra, do ar e do mar.

O quarto é atribuir o verso a Sófocles. Quem cita a peça como fonte do enunciado repete o engano mais comum sobre esse mito.

No verso antigo, a charada se resolve pela velocidade dos pés, e as horas do dia nem entram na conta.

Responda por escrito: o ser da charada, a idade de cada número de pés e a fase em que ele anda mais devagar.

 

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III  Sequência

O bebê de quatro apoios

A resposta é o ser humano, e a fase mais lenta é a de bebê, engatinhando. A solução anda em quatro passos:

1. Quatro pés: o bebê, apoiado nas mãos e nos joelhos.

2. Dois pés: o adulto, de pé.

3. Três pés: o velho, com a bengala como terceiro apoio.

4. Mais pés, menos rapidez: os quatro apoios do bebê dão o andar mais lento da vida, mais lento até do que o passo do velho de bengala.

A voz única completa a conta. O ser humano muda o jeito de andar três vezes e fala com a mesma voz em todas elas; a lagarta, a borboleta e o girino não passam no teste.

De onde vieram as horas

A moldura de manhã, meio-dia e anoitecer é uma leitura da charada, não o texto dela. Ela comprime a vida num único dia e entrega ao ouvinte a ordem dos pés. Ninguém sabe quem a criou: as fontes gregas citadas aqui não trazem as horas, e a versão com relógio se espalhou em recontos tardios até virar padrão nos livros escolares.

A versão em verso também não é de Sófocles. Asclépiades de Trágilo a registrou no século IV a.C., décadas depois da estreia do Édipo Rei, e não se sabe se ele copiou um verso mais antigo ou compôs o próprio. A taça do Vaticano prova só uma parte: a fórmula “e de três pés” circulava em Atenas por volta de 470 a.C.

Ateneu, no mesmo livro, guarda outras charadas de mesa e chama o gênero de grîphos (rede de pesca, a charada feita para prender o ouvinte). Para ele, decifrar enigmas era passatempo de banquete, prova de cultura entre convidados, longe do terror tebano.

O silêncio de Sófocles costuma ser lido como escolha dramática. A peça inteira gira em torno de um homem capaz de decifrar o enigma alheio e incapaz de decifrar a própria origem. Mostrar a charada daria ao público a vitória fácil de Édipo; escondê-la deixa só a ironia de quem respondeu “o homem” sem saber de quem era filho.

A charada mais famosa do teatro grego chegou até nós por um resumo perdido e um livro de banquete, e o teatro ficou só com a lembrança dela.

“Em qual verso do Édipo Rei a Esfinge diz o enigma?”

Em nenhum. A peça cita a cantora cruel e a charada resolvida; o enunciado vem de Asclépiades, pela cópia de Ateneu.

Teste hoje: pergunte a três pessoas onde está o enigma da Esfinge e anote as respostas. Depois leia o verso de Asclépiades, sem as horas, e cronometre quanto cada uma leva para dizer “o ser humano” e “o bebê”. Quem citar Sófocles confirma o engano comum; quem achar o bebê em até 60 segundos resolveu a charada como os gregos a ouviam.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quanto tempo antes de Sófocles escrever o Édipo Rei o enigma da Esfinge já aparecia pintado numa taça ateniense?

ADuas décadas
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CQuatro décadas
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