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O Édipo Rei, tragédia de Sófocles encenada em Atenas por volta de 429 a.C., começa com Tebas devastada por uma peste. Édipo subiu ao trono anos antes, ao livrar a cidade da Esfinge, e o sacerdote lembra o feito logo na abertura: o rei libertou Tebas do tributo pago à cantora cruel.
A palavra grega usada ali, aoidós (cantora, a que entoa versos), mostra como os gregos imaginavam a criatura: alguém que cantava charadas em verso, como um oráculo. No verso 130, Creonte a chama de poikilōidós (de canto enfeitado, cheio de voltas), outro adjetivo sobre a forma do enigma, nunca sobre o conteúdo.
A referência mais longa vem na briga com o adivinho Tirésias. Édipo, irritado, cobra dele o silêncio na hora do perigo.
“Quando a cadela cantora estava aqui, por que não disseste a palavra capaz de libertar estes cidadãos? O enigma não cabia ao primeiro que passasse; pedia arte de adivinho” (Sófocles, Édipo Rei, c. 429 a.C., versos 391 a 394, tradução livre).
Logo depois, Édipo se gaba de ter vencido pela inteligência, sem pássaros nem sinais dos deuses. A peça registra uma pergunta e uma resposta, mas não reproduz nenhuma das duas.
Antes do palco
O mito é mais velho do que a peça. Hesíodo, na Teogonia, por volta de 700 a.C., já cita a Fix (grafia antiga de Esfinge), ruína dos cadmeus, isto é, dos tebanos, descendentes de Cadmo. Ali ainda não há charada nenhuma: a fera só devora.
A charada entra no registro pela pintura. A taça atribuída ao chamado Pintor de Édipo, feita em Atenas por volta de 470 a.C. e guardada no Museu Gregoriano Etrusco, no Vaticano, mostra a Esfinge sobre uma coluna e Édipo sentado, de chapéu de viajante. Perto da boca dela, a inscrição grega kai tri[pon] (“e de três pés”).
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O enigma já estava pintado numa taça quatro décadas antes de Sófocles escrever a peça, e mesmo assim ele o deixou fora do texto.
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O verso inteiro só aparece por escrito no século IV a.C., nos Tragodoumena (Assuntos das tragédias), de Asclépiades de Trágilo, um resumo dos enredos encenados em Atenas. A obra se perdeu; o verso sobreviveu porque Ateneu de Náucratis o copiou por volta de 200 d.C. no Deipnosofistas (O banquete dos sábios), um livro de conversas à mesa.
A charada reaparece em resumos antigos anexados às Fenícias de Eurípides e numa coletânea bizantina de epigramas, a Antologia Palatina. Todas as cópias são posteriores ao Édipo Rei, e nenhuma delas fala em manhã, tarde ou noite.
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