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O bambu quebrado dos Nove Capítulos

Um problema chinês de quase 2.000 anos acha a altura da quebra com duas medidas tiradas no chão e uma conta de quatro linhas.

Bambu partido com a ponta tombada tocando o chão perto da raiz, em traço de tinta chinesa.

O bambu partido do problema chinês

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Dá para saber a que altura um bambu quebrou sem subir nele? Dá, e bastam duas medidas tiradas no chão: o comprimento original da haste e a distância entre o pé e o lugar onde a ponta encostou.

A cena aparece num manual chinês de matemática compilado por volta do ano 100, na dinastia Han. Um bambu de 10 chi (o pé chinês da época, perto de 23 centímetros) se parte, a parte de cima tomba sem se soltar, e a ponta toca a terra a 3 chi da raiz. O livro pergunta a que altura ficou a fratura.

Para um leitor de hoje, a cena parece de quintal. Para quem estudava aquele manual, era treino de ofício: o mesmo raciocínio servia para medir um muro de longe, a profundidade de um poço ou a largura de um rio sem molhar os pés.

O bambu quebrado forma um triângulo. O toco em pé é um lado, o chão até a ponta é outro, e a parte tombada vira a diagonal. A dificuldade está em saber que duas dessas três medidas somam 10, sem saber quanto vale cada uma.

Ninguém mede a parte tombada com trena. Ela fica escondida na soma, e o problema pede para desmontar a soma usando só o triângulo. Os matemáticos chineses resolviam perguntas assim com uma receita curta, escrita em frases, sem letra nem equação.

A resposta do livro não sai redonda. Vem com uma fração em vigésimos de chi, sinal de cálculo exato e não de palpite, e o número inteiro fica guardado para a terceira faixa.

Na primeira faixa abaixo, o livro, o capítulo e o homem que o comentou. Na segunda, o enunciado com as pistas para você resolver no papel. Na terceira, a conta passo a passo e a viagem do mesmo bambu até a Índia.

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I  A resposta de ontem

O capítulo da base e da altura

Os Nove Capítulos sobre a Arte Matemática, em chinês Jiuzhang Suanshu, reúnem 246 problemas resolvidos, organizados em nove partes por assunto. O texto ganhou a forma conhecida durante a dinastia Han, por volta do ano 100, juntando material mais antigo de escribas e funcionários do império.

Os capítulos seguem a vida prática da administração: medir campos, trocar grãos, repartir impostos, cavar canais, calcular obras. Cada problema vem em três partes fixas: a pergunta, a resposta e o método, a receita para fazer a conta em qualquer caso parecido.

O nono capítulo se chama Gougu (base e altura, os dois lados menores do triângulo retângulo). Gou (base) é o lado curto, gu (altura) é o lado comprido, e a diagonal entre os dois ganha o apelido de xian (corda, como a de um arco esticado).

O capítulo abre com a regra central: somar o quadrado da base ao quadrado da altura e tirar a raiz para achar a corda. É o teorema atribuído a Pitágoras no Ocidente, escrito como receita de cálculo, sem demonstração geométrica no texto original.

São 24 problemas no Gougu, e o bambu quebrado é o décimo terceiro. Os vizinhos dele tratam de um junco no meio de um lago, de uma corda pendurada num poste e de uma porta medida com uma vara.

O comentário de Liu Hui

O livro chegou até hoje com as notas de Liu Hui, matemático chinês do reino de Wei, que terminou seu comentário em 263. Liu Hui justificava as receitas com figuras recortadas e montadas de novo, num método conhecido como entrada e saída: tirar pedaços de um quadrado e encaixá-los em outro sem perder área.

No prefácio, ele resume o espírito do livro numa imagem de árvore:

“Embora os galhos se separem, saem do mesmo tronco” (Liu Hui, prefácio ao comentário dos Nove Capítulos, 263, tradução livre).

A frase serve de mapa para o Gougu. Junco, corda, porta e bambu parecem problemas diferentes, mas descansam todos no mesmo triângulo, com uma soma ou uma diferença no lugar de um dos lados.

O bambu quebrado não pede um teorema novo: pede o velho triângulo com um lado escondido dentro de uma soma.

A unidade também conta a história. O chi da dinastia Han media perto de 23 centímetros, pelos padrões de medida em bronze da época guardadas em museus chineses, então o bambu do problema tinha cerca de 2,3 metros. Era uma haste de jardim, nada de floresta gigante.

Os Nove Capítulos serviram de livro-texto oficial na China por mais de mil anos e chegaram à Coreia e ao Japão como base do ensino de cálculo. Yang Hui, matemático da dinastia Song, retomou os problemas num comentário de 1261, e o bambu quebrado seguiu junto.

 
 

II  O Enigma do dia

Dez chi e uma ponta no chão

Um bambu de 10 chi de altura se parte. A parte de cima tomba sem se soltar e a ponta toca o chão a 3 chi da raiz. A que altura do chão fica a fratura?

O enunciado acima segue o décimo terceiro problema do Gougu, numa tradução próxima do chinês clássico. O texto original cabe em uma linha e não traz desenho: o leitor tinha de montar a figura na cabeça.

Para começar, separe os dados:

• Altura inteira do bambu: 10 chi.

• Da raiz até a ponta caída: 3 chi.

• Toco em pé: valor pedido.

• Parte tombada: o resto dos 10 chi.

A primeira pista: desenhe o triângulo. O toco fica em pé, o chão fica deitado, e a parte tombada liga o alto do toco à ponta no chão. O canto entre toco e chão tem 90 graus.

A segunda pista: chame o toco de x. A parte tombada não precisa de medida própria; ela vale 10 menos x, porque toco e parte tombada somam a haste inteira.

A terceira pista: aplique a regra do Gougu. O quadrado do toco mais o quadrado da distância no chão tem de dar o quadrado da parte tombada.

A quarta pista: ao abrir o quadrado de 10 menos x, um termo com x ao quadrado aparece dos dois lados da igualdade. Corte os dois, e a conta vira uma equação simples, de primeiro grau.

Onde a conta escorrega

O primeiro escorregão é tratar a parte tombada como 10 chi. O bambu inteiro mede 10; a parte que tomba é só um pedaço dele. Usar a haste inteira como diagonal dá um toco de 9,54 chi, e somado aos 10 da diagonal passa de 19 chi de bambu.

O segundo é chutar a metade. Partir em 5 e 5 deixaria a ponta colada no pé, a 0 chi da raiz: com toco e parte tombada do mesmo comprimento, a parte de cima dobraria inteira sobre a de baixo.

O terceiro é esquecer o ângulo reto. O bambu cresce na vertical e o chão é plano; sem o canto de 90 graus, a regra do Gougu não vale e a conta fica sem saída.

O quarto é arredondar. A resposta do livro vem com fração exata, em vigésimos de chi, e um palpite de 4 ou 5 inteiros passa longe do texto.

Duas medidas tiradas no chão bastam: a terceira mora dentro da soma de 10 chi.

Responda por escrito: a altura do toco em chi, em fração e em decimal, e o comprimento da parte tombada.

 

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III  Sequência

Quatro chi e onze vigésimos

O toco fica a 4,55 chi do chão, ou 4 chi e onze vigésimos, como os Nove Capítulos escrevem. A parte tombada mede 5,45 chi. A solução anda em quatro passos:

1. Toco e parte tombada: x e 10 menos x.

2. Regra do Gougu: x² + 9 = (10 menos x)², ou x² + 9 = 100 menos 20x mais x².

3. Corte o x² dos dois lados: 9 = 100 menos 20x, então 20x = 91.

4. Divida: x = 91 ÷ 20 = 4,55 chi. A prova: 4,55 ao quadrado mais 9 dá 29,7025, igual a 5,45 ao quadrado.

Num bambu de 2,3 metros, a fratura fica perto de 1,05 metro do chão, um pouco abaixo da metade da haste.

A receita do livro

Os Nove Capítulos chegam ao mesmo número sem letra nenhuma. O método escrito manda multiplicar por si mesma a distância da raiz até a ponta, dividir pela altura do bambu, tirar o resultado da altura e partir o resto ao meio.

Com os números do problema: 3 vezes 3 dá 9; 9 dividido por 10 dá 0,9; 10 menos 0,9 dá 9,1; metade de 9,1 dá 4,55. Quatro operações feitas com varetas de cálculo, as varinhas de bambu que os escribas chineses dispunham sobre a mesa para contar.

A receita vale para qualquer bambu. Liu Hui a justificou com a figura: a parte tombada menos o toco, multiplicada pela soma dos dois, dá o quadrado da distância no chão. Como a soma é a altura inteira, a diferença sai de uma divisão, e o toco vem da metade do que sobra.

O mesmo bambu viajou. Bhaskara II, matemático indiano, incluiu no Lilavati, tratado de aritmética de 1150, um bambu de 32 côvados quebrado pelo vento, com a ponta caída a 16 côvados da raiz; a fratura fica a 12 côvados do chão.

Ninguém sabe se o problema chegou da China pelo comércio ou se nasceu de novo na Índia. O Lilavati não cita fonte, e a passagem entre os dois países não deixou registro escrito.

A conta de quatro linhas mede a fratura sem escada: basta a altura da haste e o lugar onde a ponta encostou.

“A que altura quebrou o bambu de 10 chi?”

A 4,55 chi do chão, pela receita dos Nove Capítulos: o quadrado de 3, dividido por 10, tirado de 10 e partido ao meio.

Teste hoje: pegue um palito de churrasco de 25 centímetros e dobre-o sem separar as partes, até a ponta tocar a mesa a 7,5 centímetros do pé. Meça a altura da dobra com uma fita métrica. A receita prevê 11,4 centímetros; acertar com margem de 3 milímetros confirma a conta do livro com as próprias mãos.

★ RARO

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No problema do bambu quebrado dos Nove Capítulos, com a haste de 10 chi e a ponta tocando o chão a 3 chi da raiz, a que altura fica a fratura segundo a resposta do livro?

A5,45 chi
B4,55 chi
C9,54 chi
D5 chi

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