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Gary McGuire provou o piso de 17 pistas no sudoku

Em 2012, uma equipe da University College Dublin varreu todas as grades possíveis e não achou nenhum sudoku de 16 pistas com resposta única.

Grade de sudoku com 17 números impressos e o resto vazio.

Dezessete pistas, uma solução só

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Dá pra montar um sudoku com 16 pistas e uma resposta só? Não dá. Dezessete é o piso, e a prova exigiu uma busca de computador pelas grades possíveis do jogo inteiro.

O sudoku de jornal costuma trazer bem mais números impressos, e quem resolve raramente pergunta quantos daria para apagar. Para um matemático, a dúvida virou problema aberto durante quase uma década.

A pergunta tem regra clara. Pista é cada número que já vem escrito na grade de 81 casas. Um sudoku só vale se aceitar uma solução única: se duas grades completas respeitam as mesmas pistas, o quebra-cabeça está quebrado, e o leitor descobre o defeito tarde, com a caneta já na mão.

Durante anos, caçadores de enigmas tentaram descer abaixo de 17. Gordon Royle, matemático da University of Western Australia, manteve uma coleção pública de grades com 17 pistas e solução única, e ela passou de dezenas de milhares de exemplos. Nenhum colaborador mandou um de 16.

O silêncio tinha dois sentidos possíveis. Talvez o sudoku de 16 pistas não existisse; talvez ninguém tivesse procurado no canto certo. Sem uma busca completa, os dois casos pareciam iguais vistos de fora, e a dúvida seguia aberta.

O tamanho do problema assusta. Bertram Felgenhauer e Frazer Jarvis calcularam em 2005 que existem 6.​670.​903.​752.​021.​072.​936.​960 grades de sudoku completas. Descontando as que só trocam dígitos ou giram o tabuleiro, Ed Russell e Frazer Jarvis chegaram em 2006 a 5.472.730.538 grades essencialmente diferentes.

Testar cada grade contra todas as escolhas possíveis de 16 casas daria um número de combinações fora do alcance de qualquer máquina. Faltava um atalho, e sem ele o 17 seguia como palpite bem apoiado, nunca como teorema.

O atalho apareceu na Irlanda, com um professor de matemática, dois colegas e um supercomputador nacional rodando o mesmo programa por meses seguidos.

Logo abaixo, como a equipe de Dublin fechou a busca; depois, um enigma de lápis e papel com 7 pistas, e a solução passo a passo.

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I  A resposta de ontem

Um ano de máquina em Dublin

A resposta de ontem

Quantas voltas dá o círculo de raio 1 por dentro do de raio 3?

Daria 2 voltas. Por dentro, o centro do círculo pequeno percorre um caminho de raio 2 (3 menos 1), de comprimento 4π, e cada volta do pequeno cobre 2π desse caminho. A viagem agora gira no sentido contrário ao do rolamento e tira uma volta das três da borda: a conta geral vira R/r menos 1, a mesma da hipocicloide.

Gary McGuire, professor de matemática da University College Dublin, assinou a prova com dois colegas, Bastian Tugemann e Gilles Civario. O trio publicou o resultado no começo de 2012 no arXiv (repositório aberto de artigos científicos), com um título sem rodeio: “Não existe sudoku de 16 pistas”.

A ideia central tem nome técnico: conjunto inevitável (grupo de casas de uma grade completa capaz de trocar valores sem quebrar as regras). Se nenhuma pista cai dentro desse grupo, os números dali podem ser permutados, e o quebra-cabeça ganha uma segunda solução.

O exemplo mais simples tem quatro casas. Dois números, digamos 3 e 8, ocupam os cantos de um retângulo: 3 e 8 numa linha, 8 e 3 na outra, nas mesmas colunas, espalhados por duas caixas. Trocar os quatro deixa a grade válida. Um sudoku com solução única precisa de pelo menos uma pista nesse retângulo.

A busca virou uma caça de alvos. Para cada grade completa, o programa listava os conjuntos inevitáveis e perguntava: dá para escolher 16 casas capazes de acertar todos eles? Se não dá, nenhum sudoku de 16 pistas nasce daquela grade.

O programa, batizado de checker (verificador), percorreu as 5.472.730.538 grades essencialmente diferentes, uma por uma. Nenhuma aceitou um conjunto de 16 casas tocando todos os alvos.

A vantagem do método está no corte. Em lugar de testar bilhões de escolhas de 16 casas por grade, o verificador descartava de saída qualquer escolha que deixasse um conjunto inevitável sem pista, e quase todas caíam nesse filtro logo nos primeiros alvos.

Sete milhões de horas

A varredura rodou no Stokes, supercomputador do Irish Centre for High-End Computing (centro irlandês de computação de alto desempenho), ao longo de 2011. O artigo de McGuire de 2012 registra 7,1 milhões de horas de processamento, contadas núcleo por núcleo.

Num computador doméstico com um núcleo só, a mesma busca levaria mais de 800 anos. O Stokes dividia o trabalho entre milhares de núcleos rodando juntos, e o calendário encolheu para algo perto de um ano.

Antes de soltar a busca grande, a equipe testou o verificador nas grades conhecidas de 17 pistas. Ele precisava achar todas, sem perder nenhuma; se deixasse escapar uma de 17, também poderia deixar escapar uma de 16.

O resultado saiu revisado em 2014 na revista Experimental Mathematics. Desde então, 17 é o número oficial: existe sudoku de 17 pistas com solução única, e nenhum com 16.

Para um sudoku ter resposta única, as pistas precisam tocar cada grupo de casas capaz de trocar de lugar sem quebrar a grade.

A prova tem um limite honesto: ela depende de programa de computador, e ninguém escreveu ainda um argumento curto, de lápis e papel, para o piso de 17. O motivo é o tamanho; os conjuntos inevitáveis mudam de grade para grade, e nenhum padrão geral apareceu até hoje.

 
 

II  O Enigma do dia

Sete números numa grade vazia

Um sudoku 9 por 9 traz só 7 pistas, em casas quaisquer, e tem pelo menos uma solução. Prove, sem resolver a grade, que ele sempre aceita mais de uma.

O enigma pede uma prova, e não um número. A resposta cabe em poucas linhas, e nenhuma delas usa computador nem tentativa e erro.

Para entrar no jogo, vale relembrar as regras do sudoku clássico:

• Cada linha leva os dígitos de 1 a 9, sem repetir.

• Cada coluna também leva os nove, sem repetir.

• Cada caixa 3 por 3 segue a mesma regra.

A primeira pista: conte quantos dígitos diferentes as 7 pistas conseguem mostrar, no máximo.

A segunda pista: pense em dois dígitos ausentes das pistas impressas. Chame-os de x e y.

A terceira pista: pegue uma solução completa qualquer e imagine apagar todos os x para escrever y no lugar, e o contrário também.

A quarta pista: confira se a grade nova ainda respeita linhas, colunas, caixas e as 7 pistas impressas.

Onde o raciocínio escorrega

A primeira armadilha é tentar resolver. Com 7 pistas, a grade se abre em milhões de caminhos, e o enigma não pede nenhum deles.

Resolver também não provaria nada. Achar duas soluções numa grade específica mostra o caso daquela grade, e o enigma fala de qualquer sudoku com 7 pistas, em qualquer arranjo de casas.

A segunda é achar relevante a posição das pistas. Elas podem estar espalhadas ou juntas na mesma caixa: a prova nem olha para onde estão.

A terceira é esquecer o caso de dígito repetido entre as pistas. Repetir só piora a situação do sudoku, porque sobram ainda mais dígitos ausentes.

Dígito ausente das pistas vira nome trocável: o sudoku não distingue um do outro.

Responda por escrito: a prova completa e o maior número de pistas em que ela ainda funciona.

 

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III  Sequência

Dois dígitos sem pista trocam de lugar

Com 7 pistas, a segunda solução sempre existe. A prova sai em quatro passos:

1. Sete pistas mostram no máximo 7 dígitos diferentes, então pelo menos 2 dos nove dígitos não aparecem impressos.

2. Chame esses dois de x e y e pegue qualquer solução completa da grade.

3. Troque todo x por y e todo y por x. Cada linha, coluna e caixa continua com os nove dígitos, só em outra ordem, e nenhuma pista mudou, porque nenhuma era x ou y.

4. A grade nova difere da primeira em 18 casas, as 9 do x e as 9 do y. São duas soluções, e o sudoku falha.

A resposta da segunda parte: a prova funciona até 7 pistas. Com 8, as pistas podem mostrar 8 dígitos diferentes e deixar um só ausente, e um dígito sozinho não tem com quem trocar.

Daí sai o piso fácil: todo sudoku de solução única mostra pelo menos 8 dígitos diferentes, logo tem pelo menos 8 pistas. A distância entre esse 8 de lápis e o 17 de McGuire é feita de conjuntos inevitáveis, e só a busca no Stokes conseguiu cobrir o intervalo.

O mesmo truque funciona no sudoku de 4 por 4, com dígitos de 1 a 4. Lá, 2 pistas deixam dois dígitos ausentes e falham sempre. O mínimo real dessa versão pequena é 4 pistas, grade pequena o bastante para ser conferida sem supercomputador.

O salto de tamanho explica a diferença de esforço. A versão 4 por 4 tem só 288 grades completas, número que cabe numa folha de caderno, contra os sextilhões da versão 9 por 9 calculados por Felgenhauer e Jarvis.

Quem quiser ver um sudoku de 17 pistas encontra a coleção de Royle circulando entre programadores de resolvedores automáticos. Esses jogos tendem a ser duros para gente: com tão poucas pistas, as primeiras casas quase nunca saem por eliminação simples.

Oito pistas são o piso provado no lápis; dezessete, o piso provado na máquina.

“Quantas pistas de um sudoku de jornal você consegue apagar antes de ele aceitar duas respostas?”

Teste hoje: pegue o sudoku do jornal ou do aplicativo, conte as pistas impressas e risque, uma por vez, as que você consegue deduzir de volta pelas outras, usando só eliminação por linha, coluna e caixa. Anote quantas sobram quando nenhuma outra sai por dedução. O esperado é parar bem acima de 17, sinal de folga deixada pelo autor para o jogo caber em poucos minutos.

 
 
Quiz da edição

Quantas horas de processamento o supercomputador Stokes consumiu pra fechar a prova do piso de 17 pistas?

A800 mil horas
B1,7 milhão de horas
C7,1 milhões de horas
D17 milhões de horas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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