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Enigma do Dia   Enigma do Dia
ED 015

Cem ilhéus de olhos azuis e uma frase óbvia

Ninguém pode falar da própria cor, todos só partem com certeza, e o visitante diz em voz alta o que cada um já enxergava.

Praia de uma ilha ao entardecer, com uma balsa atracada ao longe.

Uma balsa que passa toda noite à meia-noite

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Em 1969, o filósofo David Lewis publicou Convention, um livro sobre como pessoas se coordenam sem combinar nada, e nele batizou uma coisa que todo mundo usa e quase ninguém nomeia: conhecimento comum.

Não basta que todos saibam o mesmo fato. Para haver conhecimento comum, é preciso que todos saibam que todos sabem, e que todos saibam disso também, e assim por diante, sem ponto final.

A distinção parece filigrana de professor e não é. Num cruzamento, o motorista não freia só porque o sinal está vermelho para ele: ele avança no verde porque tem certeza de que o outro sabe que ele sabe que o sinal está verde.

Tire uma camada dessa pilha e a coordenação desmorona. Duas pessoas podem saber exatamente a mesma coisa, cada uma por conta própria, e mesmo assim não conseguir agir junto, porque nenhuma das duas tem permissão para contar com a certeza da outra.

Existe um jeito barato de criar a pilha inteira de uma vez. Alguém diz o fato em voz alta, diante de todos, e a partir daquele segundo cada pessoa presente sabe que as outras ouviram, sabe que as outras sabem que ela ouviu, e a escada sobe sozinha até o topo.

Aí mora o que parece feitiço. Um anúncio público que não traz nenhuma informação nova para ninguém ainda assim muda o mundo, porque o que ele acrescenta não é o fato: é o andar de cima da pilha.

O charadista costuma testar essa ideia com um enunciado que soa impossível. J. E. Littlewood registrou uma versão dela em A Mathematician's Miscellany, de 1953, com marcas na testa em vez de cor de olhos, e a estrutura é idêntica.

Antes de pisar na areia da ilha, falta fechar a conta das cem bolas, das duas urnas e da divisão que quase ninguém escreve no papel na primeira tentativa.

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I  A resposta de ontem

Uma bola sozinha na urna certa

A resposta não está em dividir bem as cem bolas. Está em usar o sorteio da moeda como um multiplicador de duas proporções que você mesmo escolhe.

Ponha uma única bola branca sozinha numa urna e jogue as noventa e nove restantes na outra, com quarenta e nove brancas e cinquenta pretas lá dentro.

Veja o que essa arrumação compra. Metade das vezes a moeda manda a mão vendada para a urna minúscula, e ali dentro não existe sorteio nenhum: só há uma bola, ela é branca, e a liberdade está decidida antes de a mão entrar.

A outra metade quase não foi machucada. A urna grande perdeu uma branca e ficou com quarenta e nove de noventa e nove, algo em torno de 49,5 por cento, porque tirar uma bola de um monte grande mal arranha a proporção dele.

Some as duas parcelas e a conta fecha assim:

Urna com 1 bola: chance de branca100%
Urna com 99 bolas: chance de branca49,5%
Média das duas, peso igual74,7%

O ganho vem inteiro do formato da média. A moeda dá cinquenta por cento de peso para cada urna sem olhar quantas bolas ela tem, então uma urna com uma bola pesa exatamente o mesmo que uma urna com quase tudo dentro.

A divisão simétrica devolve os mesmos cinquenta por cento do monte inteiro. A divisão extrema devolve quase três em cada quatro, com as mesmas cem bolas e a mesma moeda honesta.

Repare que nada foi escondido, trocado ou marcado. As bolas continuam idênticas ao toque, a moeda continua justa e o carrasco continua cego. O que mudou foi apenas onde cada bola estava quando o acaso começou a trabalhar.

Essa é a assinatura de uma família inteira de enigmas. A informação disponível é a mesma para todo mundo, o acaso é o mesmo, e a diferença nasce da estrutura montada antes, no único momento em que alguém ainda podia escolher.

Guarde o gesto, porque hoje ele reaparece sem urna nenhuma. Em vez de arrumar bolas, alguém vai arrumar o que cada pessoa sabe sobre o que as outras sabem, e a mudança virá de uma frase que não conta novidade a ninguém.

 
 

II  O Enigma do dia

O que o visitante disse ao desembarcar

Cem ilhéus vivem numa ilha e todos têm olhos azuis. Não há espelho, água parada ou superfície que reflita, e a regra mais antiga do lugar proíbe qualquer um de falar sobre a cor dos olhos de quem quer que seja, inclusive a própria. Cada ilhéu enxerga perfeitamente os olhos dos outros noventa e nove. Uma balsa passa toda noite à meia-noite, e o costume manda que quem tiver certeza da própria cor embarque naquela mesma noite, sem avisar ninguém. Todos são lógicos perfeitos e sabem que os outros também são. Um visitante desembarca, olha em volta e diz em voz alta, diante de todos: vejo pelo menos uma pessoa de olhos azuis. Por que os cem partem juntos na centésima noite?

Nenhum ilhéu sabe a própria cor. Ele vê noventa e nove pares de olhos azuis à sua frente e não tem como saber se é o centésimo azul ou o único diferente da ilha.

A regra da balsa é rígida e silenciosa. Quem alcança a certeza embarca naquela noite, quem não alcança fica, e ninguém comenta o embarque de ninguém no dia seguinte.

O visitante não sussurra e não escolhe interlocutor. Ele fala uma vez, diante de todos, e vai embora sem responder pergunta nenhuma.

Fora da regra: contar os dias em voz alta, combinar sinal, deixar bilhete, tocar no assunto por metáfora ou observar quem embarcou para deduzir a partir daí. A dedução tem que caber dentro da cabeça de cada ilhéu.

Onde quase todo mundo trava

A primeira reação é dizer que o visitante não falou nada. Cada ilhéu já via noventa e nove pessoas de olhos azuis, então a frase vejo pelo menos uma parece a informação mais inútil já dita naquela ilha.

A segunda reação é aceitar que nada muda e parar. Se a informação era velha para os cem, a vida da ilha deveria seguir igual, e noventa e nove noites de nada aconteceriam seguidas de mais nada.

A frase não entregou o fato. Ela entregou o andar de cima: agora todos sabem que todos ouviram, e ninguém pode mais fingir que a certeza do vizinho é diferente da sua.

Comece pelo caso mínimo para sentir o mecanismo. Se houvesse um único ilhéu de olhos azuis, ele veria zero azuis à sua frente, entenderia na hora que a frase falava dele e embarcaria já na primeira noite.

Agora ponha dois. Cada um vê um azul e pensa: se eu não for azul, o outro está vendo zero azuis e vai embarcar hoje. Quando a primeira noite passa e ninguém embarca, os dois descobrem a própria cor e partem juntos na segunda.

A escada já está montada com três. Cada um vê dois e espera a segunda noite passar em branco, o que só acontece se ele também for azul, e os três embarcam na terceira noite.

Repare no que está sendo usado como informação. Não é o que ninguém diz: é a noite que passa sem embarque, e cada noite vazia elimina exatamente uma hipótese da cabeça de todo mundo ao mesmo tempo.

O enunciado está inteiro aqui em cima. Cem ilhéus, nenhum espelho, uma balsa por noite, uma frase óbvia dita em público e a pergunta de por que a centésima noite é a noite.

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III  Sequência

Quatro adesivos e uma mesa de cozinha

Junte três pessoas em volta de uma mesa e separe quatro adesivos redondos, dois azuis e dois vermelhos, mais um caderno para cada uma anotar em segredo.

Cole um adesivo azul na testa de cada jogador sem que ninguém veja o próprio, guarde os que sobraram fora de vista e proíba qualquer comentário sobre cor durante a partida.

1. Rode a versão muda primeiro. Sem ninguém dizer nada, marque três rodadas de trinta segundos e peça que cada um escreva no caderno, ao fim de cada rodada, se já tem certeza da própria cor. Os cadernos vão sair em branco nas três.

2. Agora faça o papel do visitante. Diga em voz alta, olhando para a mesa inteira, que existe pelo menos um adesivo azul ali, e recomece as rodadas de trinta segundos com a mesma pergunta no fim de cada uma.

3. Compare os dois cadernos. Na segunda partida, a terceira rodada costuma sair com os três nomes escritos e a cor certa ao lado, e a diferença entre os placares é uma frase que nenhum dos três precisava ouvir para enxergar o que já via.

"O conhecimento comum de uma proposição exige que cada um tenha razão para acreditar que os outros têm razão para acreditar nela."

David Lewis, Convention: A Philosophical Study, 1969.

A mesa entrega o que a fórmula esconde. Enquanto ninguém fala, cada jogador tem uma teoria particular sobre o que o vizinho está pensando, e teoria particular não sincroniza rodada com rodada.

A rodada que passa em branco é o segundo ingrediente. Ela só vira informação depois que existe um ponto de partida comum, porque antes disso o silêncio de cada um tinha explicações demais para servir de prova.

Se travar, escreva a escada em linhas numeradas. Um azul embarca na noite 1, dois azuis embarcam na noite 2, três embarcam na noite 3, e o padrão diz sozinho o que acontece quando o número chega a cem.

A Sequência é o placar de quem vira a chave sozinho. Um ponto por enigma fechado antes de a solução aparecer, e o placar zera no dia em que você espia fora da hora. Ninguém confere, e um placar sem plateia é o único que não se falsifica.

Um último aviso de jogo limpo. Se o seu raciocínio precisa que alguém pisque, tussa ou conte os dias em voz alta, ele ainda não é o raciocínio.

A frase do visitante não acrescentou um fato, acrescentou uma certeza compartilhada. Daí em diante cada noite sem embarque vira uma prova pública, e noventa e nove provas seguidas fecham a conta de todo mundo na mesma hora.

"Quantas noites de nada você aguenta contar antes de embarcar?"

 
 
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Na ilha dos cem habitantes de olhos azuis, em que noite todos embarcam depois da frase do visitante?

ANa primeira noite depois da frase
BNa décima noite
CNa centésima noite
DEm noite nenhuma, ninguém consegue deduzir

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