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As 97 letras de Kryptos seguem fechadas

Em 1999, um cientista da computação leu três passagens da escultura da CIA. A quarta resiste com três pistas do autor.

Escultura de cobre com letras vazadas no pátio da sede da CIA.

Kryptos, no pátio da sede da CIA

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Por que ninguém leu até hoje a última passagem de Kryptos, a escultura do pátio da CIA? Porque o autor trocou de método na reta final, e as 97 letras dessa passagem não obedecem às regras usadas nas outras três.

Kryptos (escondido, em grego) é uma placa de cobre curvada em S, com letras vazadas de cima a baixo, plantada entre árvores no pátio da sede da agência em Langley, na Virgínia. O escultor americano Jim Sanborn instalou a peça em novembro de 1990. Quem passa pelo pátio vê uma parede de letras sem espaço, sem pontuação e sem sentido aparente.

Sanborn não é criptógrafo. Para montar as cifras, ele teve aulas com Ed Scheidt, recém-aposentado da chefia do centro de criptografia da própria CIA. Scheidt ensinou os métodos clássicos, feitos à mão, e Sanborn decidiu como combinar os métodos em cada trecho.

Um dos lados da placa traz uma tabela: um alfabeto repetido em linhas, cada linha deslocada uma letra. Essa tabela é a ferramenta da cifra de Vigenère (troca de letras guiada por uma palavra-chave), e ela fica à vista de qualquer visitante. O outro lado traz o texto cifrado, dividido pelos decifradores em quatro passagens, chamadas K1, K2, K3 e K4.

As três primeiras caíram. A quarta resiste há 36 anos a matemáticos, agentes de inteligência e milhares de amadores reunidos em fóruns na internet. Sanborn, cansado de cartas com soluções erradas, começou a soltar pistas: uma palavra em 2010, outra em 2014, a terceira em 2020.

As pistas acertam posições exatas. Sanborn diz qual trecho cifrado vira qual palavra clara, e mesmo assim o resto da passagem não se abre. Quem conhece a cifra de Vigenère entende o tamanho do problema: com a chave certa, seis letras saem em minutos; sem ela, a mesma tabela não leva a lugar nenhum.

Abaixo, primeiro como as três passagens foram lidas e o que cada uma diz. Depois, um enigma de seis letras cifrado pelo mesmo método, com o alfabeto comum. Por último, o passo a passo para decifrar à mão e o estado das pistas da quarta.

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I  A resposta de ontem

Um computador na Califórnia em 1999

Jim Gillogly, cientista da computação da Califórnia, anunciou em 1999 a leitura de K1, K2 e K3. Ele não trabalhou no lápis: escreveu um programa que testava palavras-chave e métodos e media se o resultado parecia inglês. O computador abriu as três passagens e emperrou na quarta.

O anúncio trouxe uma surpresa vinda da própria CIA. David Stein, analista da agência, tinha lido as mesmas três passagens em 1998, à mão, nas horas de almoço, e publicado a solução num boletim interno. Em 2005 veio a público uma terceira leitura, de uma equipe da NSA (agência de segurança nacional americana), feita em 1992.

Os três chegaram ao mesmo texto, por caminhos separados e sem contato entre si.

K1 e K2, duas cifras de Vigenère

K1 usa a chave PALIMPSEST (palimpsesto, pergaminho raspado e reescrito) sobre o alfabeto da escultura, que começa pela palavra KRYPTOS e segue com as letras restantes. O texto claro diz, em inglês: entre a sombra sutil e a ausência de luz mora a nuance da iqlusion. A palavra final traz um Q no lugar do L de illusion (ilusão), erro deixado de propósito.

K2 usa a chave ABSCISSA (abscissa, a coordenada horizontal de um gráfico). O texto fala de algo totalmente invisível, cita o campo magnético da Terra e termina com coordenadas de latitude e longitude de um ponto no terreno da sede da CIA. A última frase pergunta quem sabe o local exato e responde: só WW, iniciais de William Webster, diretor da agência na época da obra.

Em 2006, Sanborn avisou ter esquecido uma letra X ao gravar K2. Com a letra de volta, o trecho final, lido até então como ID BY ROWS (identificar pelas linhas), vira LAYER TWO (camada dois).

K3, um diário de 1922

K3 abandona a troca de letras e usa transposição (troca da ordem das letras, sem trocar as letras). O texto parafraseia o relato do arqueólogo britânico Howard Carter no dia em que ele abriu um furo na porta da tumba de Tutancâmon, no Egito, em novembro de 1922. Traz outro erro proposital: DESPARATLY no lugar de desperately (desesperadamente).

A passagem descreve o ar quente saindo da câmara, a chama da vela tremendo e os detalhes surgindo da névoa. Termina numa pergunta cortada, can you see anything (você enxerga algo), feita a Carter pelo financiador da escavação, Lorde Carnarvon.

As três passagens lidas trocam de método a cada uma, e a quarta herdou a troca.

A resposta de Carter ficou no livro dele: “Yes, wonderful things” (sim, maravilhas), Howard Carter, The Tomb of Tut.ankh.Amen (a tumba de Tutancâmon), 1923. Sanborn gravou a pergunta e deixou a resposta fora do cobre, para o leitor completar.

 
 

II  O Enigma do dia

Seis letras e a chave SOL

Uma palavra de seis letras foi cifrada pela Vigenère, com a chave SOL repetida sobre ela e o alfabeto comum, de A a Z. O resultado é TSCDWX. Qual é a palavra?

O palpite comum é procurar uma palavra parecida com TSCDWX, ou trocar cada letra pela vizinha do alfabeto. Nenhum dos dois caminhos funciona, porque cada letra andou uma distância diferente.

O que conferir

Na Vigenère, cada letra vale um número: A vale 0, B vale 1, e assim até Z, que vale 25. Para cifrar, soma-se a letra da palavra com a letra da chave posicionada acima dela; passando de 25, subtrai-se 26 e a contagem recomeça no A.

Para decifrar, o caminho se inverte: subtrai-se a letra da chave da letra cifrada. Resultado negativo ganha 26. A chave SOL tem três letras, então ela se repete duas vezes sobre as seis letras: S, O, L, S, O, L.

As pistas

1. Primeira pista: S vale 18, O vale 14 e L vale 11.

2. Segunda pista: a primeira letra cifrada é T, que vale 19; 19 menos 18 dá 1.

3. Terceira pista: a palavra é o nome de uma capital europeia, escrito em português.

4. Quarta pista: a mesma capital aparece numa das pistas de Sanborn para K4.

Onde o raciocínio escorrega

O primeiro escorregão é tratar a cifra como troca fixa, a mesma para todas as letras. Na Vigenère, a mesma letra clara vira letras cifradas diferentes conforme a posição, enquanto uma letra cifrada pode esconder letras claras diferentes.

O segundo é esquecer de somar 26 quando a subtração dá negativo. A terceira letra, C, vale 2, e a chave ali é L, que vale 11: 2 menos 11 dá menos 9, e menos 9 mais 26 dá 17.

O terceiro é desalinhar a chave. Ela recomeça no S na quarta letra, e quem continua contando a partir do O troca as três últimas letras do resultado.

A chave decide a distância de cada letra, e sem ela a tabela não diz nada.

Responda antes de seguir: escreva num papel as seis letras da palavra.

 

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III  Sequência

Como abrir uma Vigenère à mão

O método cabe em cinco movimentos, com papel, lápis e o alfabeto escrito numa linha com os números embaixo.

1. Escreva a mensagem cifrada numa linha, com espaço entre as letras.

2. Escreva a chave logo abaixo, repetida até cobrir a última letra.

3. Troque cada letra das duas linhas pelo número dela, de 0 a 25.

4. Subtraia o número de baixo do número de cima; se der negativo, some 26.

5. Converta cada resultado em letra e leia a linha nova.

A resposta do enigma é BERLIM. As contas dão 1, 4, 17, 11, 8 e 12, ou B, E, R, L, I e M. A terceira letra, R, sai do 17 calculado com a soma de 26.

As três pistas de K4

Em 2010, Sanborn revelou BERLIN (Berlim, em inglês) nas posições 64 a 69 de K4, ocupadas pelas letras cifradas NYPVTT. Em 2014 veio CLOCK (relógio), nas posições 70 a 74, sobre MZFPK. Em 2020 veio NORTHEAST (nordeste), nas posições 26 a 34, sobre QQPRNGKSS.

BERLIN e CLOCK aparecem coladas e apontam para o Relógio de Berlim, o Mengenlehreuhr (relógio da teoria dos conjuntos), que marca as horas com lâmpadas acesas em fileiras. Sanborn confirmou a referência ao relógio. Como ele entra no método, o autor nunca disse.

As 20 letras conhecidas não abrem as outras 77. Decifradores apontam dois motivos: 97 letras dão pouco texto para medir frequência de letras, a técnica clássica contra a Vigenère, e Scheidt contou ter ensinado a Sanborn formas de mascarar o texto claro antes de cifrar. Qual máscara entrou em K4, Sanborn manteve em segredo.

As pistas entregam um quinto da passagem, e o método segue com o autor.

Em 2025, Sanborn levou a leilão os papéis com a solução de K4. O texto completo continua sem publicação, e quem chega a uma leitura própria ainda pode conferir as 20 letras das pistas contra o resultado.

“Qual palavra sai de TSCDWX com a chave SOL?”

BERLIM, a mesma cidade da primeira pista de Sanborn para K4.

Teste hoje: cifre o seu primeiro nome com a chave SOL e entregue a alguém só o resultado e a chave, com os cinco movimentos escritos num papel. Cronometre a decifração. Com a chave, seis letras devem sair em menos de cinco minutos; entregue depois outra palavra cifrada sem a chave e conte quantas letras a pessoa acerta no mesmo tempo.

 
 
Quiz da edição

Qual das três leituras independentes de K1, K2 e K3 ocorreu primeiro, segundo o texto?

AJim Gillogly, em 1999, com um programa de computador
BDavid Stein, analista da CIA, em 1998, nas horas de almoço
CUma equipe da NSA, em 1992, revelada ao público só em 2005
DJim Sanborn, o escultor, ao instalar a obra em 1990

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