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As 8 xícaras de chá que testaram o paladar de Muriel Bristol

4 com leite antes, 4 com chá antes: acertar todas no chute tem chance de 1 em 70.

Oito xícaras de chá com leite enfileiradas sobre uma mesa, à espera da degustação às cegas.

A mesa de 8 xícaras que Fisher desenhou

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Dá pra provar que alguém sente pelo gosto se o leite entrou na xícara antes do chá? Dá, e a prova pede só 8 xícaras e uma conta que cabe num guardanapo.

Imagine a mesa posta. Quatro xícaras recebem primeiro o leite e depois o chá. Outras quatro recebem o chá primeiro e o leite por cima. A degustadora sabe que são 4 de cada tipo, mas não sabe a ordem em que vão chegar.

Ela prova uma por uma e separa as xícaras em dois grupos de 4. Se acertar todas, o que o acerto prova, afinal?

Depende de quanto o puro chute renderia. Escolher 4 xícaras entre 8 dá 70 grupos possíveis, e só um deles é o certo. Quem não sente diferença nenhuma e escolhe ao acaso acerta tudo 1 vez a cada 70 tentativas, perto de 1,4%.

Parece pouco para um golpe de sorte, e é. Mas acertar 3 das 4 já não impressiona: o acaso entrega esse placar com frequência bem maior, e a conta exata está na solução, mais abaixo.

Mesmo um acerto perfeito não prova talento sozinho. Ele só mostra que a explicação do chute ficou difícil de sustentar, porque exigiria uma sorte que aparece em pouco mais de 1 tentativa a cada 70.

A graça do arranjo está no desenho. Ninguém precisa acreditar na degustadora nem duvidar dela. As xícaras saem numa ordem sorteada, a contagem de grupos é fixa, e o resultado fala sozinho.

A cena aconteceu num instituto agrícola inglês, com uma cientista de algas, um estatístico e um químico que topou preparar as xícaras às cegas. O estatístico transformou a conversa de chá num capítulo de livro e, a partir dele, num método usado até hoje em teste de remédio.

A seguir: quem era a degustadora, o que aconteceu na mesa e por que o número 70 virou fronteira entre palpite e prova.

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I  A resposta de ontem

A xícara recusada em Rothamsted

Muriel Bristol, cientista especializada em algas do solo, trabalhava no começo da década de 1920 na Estação Experimental de Rothamsted, em Harpenden, ao norte de Londres. A estação estudava adubo, solo e colheita desde 1843, e ali Ronald Aylmer Fisher fazia estatística aplicada à lavoura.

Fisher passou 14 anos em Rothamsted, de 1919 a 1933, analisando décadas de registros de colheita, e saiu de lá para uma cátedra na University College London.

Numa tarde de chá entre os pesquisadores, Fisher serviu uma xícara e ofereceu a Bristol. Ela recusou. Preferia o leite colocado antes do chá e garantiu que sentia a diferença pelo sabor.

Fisher duvidou em tom de brincadeira. William Roach, químico da estação que mais tarde se casaria com Bristol, propôs resolver na hora: preparar xícaras nas duas ordens, servir sem dizer qual era qual e anotar o que ela apontava.

O relato vem de Joan Fisher Box, filha do estatístico, na biografia R. A. Fisher: The Life of a Scientist (R. A. Fisher: a vida de um cientista), de 1978. Segundo Roach, Bristol acertou o bastante para provar o que dizia. Quantas xícaras foram servidas naquela tarde e qual foi o placar exato não se sabe: ninguém registrou a contagem, e a única fonte é a lembrança de Roach repassada à família Fisher.

O teste de Rothamsted nasceu de uma xícara recusada e foi decidido por um químico que se ofereceu para servir às cegas.

O capítulo que Fisher escreveu

Em 1935, Fisher publicou The Design of Experiments (O planejamento de experimentos). O segundo capítulo usa a cena do chá como exemplo completo de método, sem citar Bristol: fala só de uma senhora que diz distinguir a ordem do leite.

Ali ele fixa o desenho. São 8 xícaras, 4 de cada ordem, servidas numa sequência sorteada, e a degustadora é avisada de que há 4 de cada. Ela precisa apontar as 4 que receberam o leite primeiro.

Fisher dá o nome de hipótese nula (a suposição de partida de que a senhora não sente diferença nenhuma) ao cenário posto à prova. O experimento não tenta confirmar o talento dela; tenta derrubar a ideia de que ela chuta.

“Pode-se dizer que todo experimento existe apenas para dar aos fatos a chance de refutar a hipótese nula.” Ronald Fisher, The Design of Experiments, 1935.

A química pode dar razão a Bristol. Em 2003, a Royal Society of Chemistry divulgou um guia do químico Andrew Stapley, da Universidade de Loughborough, a favor do leite primeiro: despejado sobre o chá quente, o leite esquenta de forma desigual e a proteína se desnatura (perde a forma original), o que altera o gosto.

 
 

II  O Enigma do dia

Quantos grupos cabem em 8 xícaras

No teste de Fisher, a degustadora aponta 4 xícaras entre 8. Primeiro: de onde sai o número 70? Segundo: se ela só chuta, qual a chance de acertar exatamente 3 das 4 com leite antes? Pergunta extra: com 6 xícaras, 3 de cada ordem, qual a chance de acertar tudo no chute?

Dá pra resolver com papel, lápis e paciência para contar. Nenhuma fórmula é obrigatória; a contagem direta funciona.

A primeira pista vale para o 70. Numere as xícaras de 1 a 8. A primeira escolha tem 8 opções, a segunda 7, a terceira 6, a quarta 5. Multiplicadas, dão 1.680 sequências.

A segunda pista: a ordem em que ela aponta não importa. O grupo 1, 2, 3, 4 é igual ao grupo 4, 3, 2, 1. Cada grupo aparece repetido tantas vezes quantas dá para embaralhar 4 itens: 4 × 3 × 2 × 1 = 24.

A terceira pista vale para os 3 acertos. Acertar exatamente 3 significa escolher 3 das 4 xícaras certas e 1 das 4 erradas. Conte as duas escolhas separadas e multiplique.

A quarta pista vale para a pergunta extra. Repita a primeira e a segunda pistas com 6 xícaras e grupos de 3.

Onde a conta tropeça

A primeira armadilha é parar no 1.680. Esse número conta sequências, e a degustadora entrega um grupo, sem ordem.

A segunda é achar que 3 acertos em 4 valem 75% de prova. A pergunta certa é com que frequência o puro chute chega a esse placar.

A terceira é esquecer que, quando ela troca uma xícara com leite antes, também troca uma com chá antes. Os erros andam aos pares, e o placar só pode ser 0, 1, 2, 3 ou 4 acertos.

Um resultado só pesa como prova quando o acaso, sozinho, raramente o produz.

Responda por escrito: a conta do 70, a chance de 3 acertos e a chance com 6 xícaras.

 

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III  Sequência

16 grupos com um erro só

O 70 sai de 1.680 dividido por 24. A chance de exatamente 3 acertos é 16 em 70, perto de 23%. Com 6 xícaras, acertar tudo no chute tem chance de 1 em 20. A conta fecha em quatro passos.

1. Grupos de 4 em 8: 8 × 7 × 6 × 5 = 1.680 sequências; cada grupo aparece em 24 delas; 1.680 ÷ 24 = 70.

2. Exatamente 3 certas: 4 maneiras de escolher as 3 certas entre as 4 com leite antes, vezes 4 maneiras de escolher a errada entre as 4 com chá antes. São 16 grupos, ou 16 em 70.

3. Pelo menos 3 certas: os 16 grupos com um erro mais o único grupo perfeito dão 17 em 70, perto de 24%. Quase 1 chance em 4.

4. Pergunta extra: 6 × 5 × 4 = 120 sequências, divididas por 3 × 2 × 1 = 6, dão 20 grupos. Acertar tudo no chute sai 1 vez em 20, ou 5%.

No mesmo capítulo de 1935, Fisher mostra que 6 xícaras deixariam o acerto total por sorte em 1 vez a cada 20, e que 8 xícaras derrubam a chance para 1 em 70.

O desenho também exige sorteio legítimo. Se as xícaras com leite antes chegassem sempre primeiro, ou numa louça diferente, a degustadora poderia acertar pela ordem ou pela xícara, sem provar nada pelo gosto. Fisher pede a sequência sorteada para fechar essas portas.

Ele também explica por que 3 acertos em 4 não bastam: 17 em 70 é sorte frequente demais para separar paladar de palpite. No desenho de 8 xícaras, só o placar perfeito passa.

A conta ganhou o sobrenome dele. Hoje se chama teste exato de Fisher e serve para comparar dois grupos pequenos, como pacientes tratados e não tratados num ensaio clínico com poucos voluntários.

No teste de 8 xícaras, só o placar de 4 em 4 separa paladar de chute: 3 em 4 aparece por sorte em 17 de cada 70 tentativas.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes de conferir a solução, e o placar zera quando você espia fora da hora.

“Quantas xícaras você exigiria antes de acreditar num paladar como o de Muriel Bristol?”

Teste hoje: peça a alguém que prepare 8 copos de água, 4 com uma colher de açúcar e 4 sem, em ordem sorteada, e aponte os 4 doces sem olhar. Anote quantos acertou. Acerto de 4 em 4 no chute sai 1 vez em 70; 3 em 4 sai em 16 de cada 70 tentativas, perto de 1 em 4.

 
 
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No teste das 8 xícaras, com 4 de cada ordem, qual é a chance de a degustadora acertar as 4 certas apenas no chute?

A1 em 2
B1 em 8
C1 em 20
D1 em 70

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