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O pergaminho do Stomachion virou um devocionário (livro de orações) grego. O escriba Ioannes Myronas assinou a cópia e datou o trabalho: 14 de abril de 1229. Para fazê-la, desmontou um códice (livro manuscrito de folhas costuradas) do século 10 com tratados de Arquimedes, raspou a tinta, dobrou as folhas e escreveu as rezas por cima.
A raspagem não apagou tudo. A tinta antiga levava ferro e deixou marca no couro. As linhas de Arquimedes seguiram ali, quase invisíveis, correndo na perpendicular das orações.
Um volume assim recebe o rótulo de palimpsesto (pergaminho raspado e reescrito). Na Idade Média, couro de animal custava caro, e reaproveitar um livro velho de matemática para uma reza nova fazia sentido para quem só precisava da folha.
Heiberg chegou ao volume por uma nota de catálogo. Em 1899, o estudioso grego Athanasios Papadopoulos-Kerameus descreveu o manuscrito e copiou umas linhas de matemática visíveis sob a reza. Heiberg reconheceu Arquimedes naquelas linhas e viajou a Constantinopla.
Ele leu quase tudo com lupa e publicou o resultado na edição completa das obras de Arquimedes, entre 1910 e 1915. O Stomachion saiu curto: sobrevivia uma única folha, com a introdução e o começo do argumento.
Do sumiço ao leilão
Depois da Primeira Guerra Mundial, o devocionário desapareceu da biblioteca. Reapareceu com uma família francesa, guardado sem cuidado, tomado de mofo e com quatro páginas cobertas por retratos de evangelistas pintados no século 20, falsos, para valorizar o volume.
Em 1998, a casa de leilões Christie's vendeu o manuscrito em Nova York por 2 milhões de dólares a um comprador anônimo. O dono novo emprestou o pergaminho ao Walters Art Museum, em Baltimore, que montou uma equipe de conservação e de imagem.
A equipe fotografou cada folha em várias faixas de luz, do ultravioleta ao infravermelho. Depois levou páginas ao acelerador de partículas da Universidade Stanford, onde a fluorescência de raios X acendeu o ferro da tinta antiga, inclusive sob as pinturas falsas.
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Uma folha raspada guardou a pergunta: de quantos jeitos as 14 peças voltam ao quadrado.
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Com as imagens novas, o historiador Reviel Netz, da Universidade Stanford, propôs em 2003 a leitura que mudou o jogo. O tratado parece perguntar quantas montagens diferentes existem, o que faria dele um dos primeiros problemas de combinatória (o ramo da matemática que conta arranjos) da história.
A resposta veio ainda em 2003. O cientista da computação Bill Cutler rodou uma busca completa no computador e contou 536 montagens diferentes; somando os giros e os espelhos de cada uma, 17.152.
Falta uma peça na história. A folha sobrevivente para antes da pergunta final, então a leitura de Netz segue como hipótese bem fundamentada, e ninguém sabe se Arquimedes chegou a um número.
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