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David Smith, gráfico aposentado de Bridlington, cidade litorânea de East Yorkshire, no norte da Inglaterra, tinha um passatempo de geometria: recortar polígonos em cartolina e testar se eles cobriam a mesa sem deixar vão. Em novembro de 2022 ele montou uma forma de 13 lados que se recusava a formar fileiras.
Para desenhar as candidatas, Smith usava o PolyForm Puzzle Solver (programa que monta quebra-cabeças de peças geométricas), criado pelo cientista da computação Craig S. Kaplan, professor da Universidade de Waterloo, no Canadá. A peça nasce de uma malha de hexágonos: cada hexágono se corta em seis pipas (quadriláteros no formato de pipa de papel), e o chapéu junta oito delas.
Smith percebeu que conseguia cobrir áreas cada vez maiores, sempre sem repetir o desenho. Escreveu para Kaplan, que testou a forma no computador e chamou dois colegas: Joseph Samuel Myers, desenvolvedor de software em Cambridge, e Chaim Goodman-Strauss, matemático da Universidade do Arkansas.
O artigo An aperiodic monotile (Uma peça única aperiódica, ou seja, sem padrão que se repete) apareceu no arXiv, o repositório público de artigos científicos, em 20 de março de 2023. A versão revisada saiu em 2024 na revista Combinatorial Theory, assinada pelos quatro.
A busca tinha começado décadas antes. Robert Berger publicou em 1966 o primeiro conjunto de peças que só cobre o plano sem repetição: eram 20.426 formas diferentes. Raphael Robinson baixou para seis peças em 1971, e Roger Penrose chegou a duas em 1974, com as pipas e dardos que levam o sobrenome dele.
De duas peças para uma demorou quase meio século. O passo final veio de um amador, com uma ferramenta gratuita e uma pilha de cartolina.
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A peça que escapou aos matemáticos por décadas saiu de uma tesoura numa mesa de casa.
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Como se prova que nunca repete
Encaixar mil peças não prova nada: o padrão poderia voltar na peça mil e uma. A equipe apresentou duas provas independentes, cada uma suficiente sozinha.
A primeira agrupa os chapéus em blocos maiores, que se combinam em blocos ainda maiores, numa escada sem fim. Matemáticos chamam o método de substituição (trocar cada bloco por uma versão ampliada de si mesmo), e um piso montado assim não admite período.
A segunda usa uma família de formas. O chapéu pertence a uma série contínua de polígonos, que inclui a tartaruga, outro parente aperiódico. A equipe mostrou que, se o chapéu admitisse um piso periódico, as formas vizinhas na série também admitiriam, e as contas de área entre elas dariam contradição.
Restou uma ressalva: o chapéu precisa de cópias espelhadas. Em maio de 2023 a mesma equipe publicou o Spectre (Espectro), uma peça de lados curvos que cobre o plano sem repetir e sem nenhuma cópia espelhada. Smith, que nunca publicou artigo antes, aparece como primeiro autor dos dois trabalhos.
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