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Enigma do Dia   Enigma do Dia
ED 052
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A partida parada em 2 a 1 que Pascal e Fermat dividiram

Numa disputa de três vitórias interrompida em 2 a 1, a bolsa justa se reparte em 3 para 1, e a prova veio em cartas de 1654.

Duas cartas lacradas e pilhas de moedas de ouro sobre uma mesa à luz de vela.

Bolsa de 64 pistolas: 48 contra 16

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Se uma partida de três vitórias para em 2 a 1, quem lidera deve levar o dobro do adversário? Deve levar o triplo: numa bolsa de 64 pistolas (moedas de ouro usadas na França do século 17), 48 ficam com quem lidera e 16 com quem persegue.

A cena é simples de montar. Dois jogadores põem 32 pistolas cada na mesa e combinam que leva tudo quem vencer três rodadas primeiro. Cada rodada é pura sorte, meio a meio, como uma moeda jogada para cima. O placar chega a 2 a 1, e a partida precisa parar: alguém chama um dos jogadores, a vela acaba, a noite termina.

Resta a bolsa. Devolver 32 para cada um apaga a vantagem de quem já ganhou duas rodadas. Dar as 64 ao líder ignora que o outro ainda podia virar. Algum meio-termo precisa existir, e a primeira resposta que ocorre a quase todo mundo olha para o placar.

Pelo placar, o líder venceu duas rodadas e o rival uma. Dividir em 2 para 1 daria cerca de 42,7 pistolas contra 21,3. A conta parece justa porque premia o trabalho feito, rodada por rodada, e foi a regra aceita nos livros de aritmética por uns cento e sessenta anos.

O defeito mora na direção do olhar. O placar conta o passado, e a bolsa pertence ao futuro: ela vai para quem vencer as rodadas que faltam. A pergunta certa muda de "quanto cada um já fez" para "que chance cada um tinha de levar tudo se o jogo seguisse".

Com essa troca, a conta fica curta. Ao líder falta uma vitória; ao rival faltam duas. O rival só leva a bolsa se vencer as duas próximas rodadas, e a chance de acertar duas moedas seguidas é 1 em 4. Sobram 3 em 4 para o líder. Três quartos de 64 dão 48.

A seção seguinte mostra quem escreveu a conta, em que cartas, com qual data, e por que dois matemáticos chegaram ao mesmo número por caminhos que um julgava errados no outro.

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I  A resposta de ontem

Duas cartas, um número

Blaise Pascal, matemático e filósofo de Clermont, escreveu a Pierre de Fermat, juiz do parlamento de Toulouse e matemático nas horas vagas, em 29 de julho de 1654. Na carta, resolveu a partida de 64 pistolas parada em 2 a 1 e deu 48 ao líder e 16 ao rival.

Pascal chegou ao número andando para trás. Imagine que a próxima rodada acontece. Se o líder vence, fecha o jogo em 3 a 1 e leva as 64. Se o rival vence, o placar vira 2 a 2, e aí cada um tem chance igual: o justo é 32 para cada.

Então o líder tem 32 pistolas garantidas em qualquer caso. As outras 32 dependem de uma moeda, e o justo é repartir meio a meio: 16 para cada. O líder soma 32 mais 16, 48. O rival fica com 16.

A bolsa se reparte pela chance de cada jogador vencer as rodadas que faltam, e nunca pelas rodadas que ele já venceu.

O caminho de Fermat

Fermat preferia contar. Ele imaginava rodadas fictícias até o ponto em que alguém teria vencido com certeza: aqui, duas rodadas bastam. Duas moedas geram quatro sequências igualmente prováveis: líder e líder, líder e rival, rival e líder, rival e rival. Só a última dá a bolsa ao rival.

Pascal estranhou o método. Na partida real, se o líder vence a primeira rodada fictícia, a segunda nem acontece; contar sequências que nunca seriam jogadas soava como trapaça. Fermat respondeu que jogar ou não a rodada extra não muda o vencedor, e a contagem com rodadas completas fica mais limpa.

As cartas do verão de 1654 mostram os dois cedendo. Pascal aceitou a contagem de Fermat e escreveu que a verdade valia igual em Toulouse e em Paris. O método de Pascal virou o avô do que hoje se chama esperança matemática (o valor médio que cada jogador pode esperar de uma aposta).

O problema tinha idade. Luca Pacioli, frade franciscano e matemático de Sansepolcro, publicou em 1494 a Summa de arithmetica (Suma de aritmética), onde dividia a bolsa na proporção do placar. Era a regra dos 2 para 1.

Niccolò Tartaglia, matemático de Bréscia, desmontou a regra em 1556 com um exemplo. Numa disputa de 60 pontos parada em 10 a 0, Pacioli daria tudo ao líder, que ainda precisava de 50 pontos. Tartaglia concluiu que a questão era mais de juiz que de aritmética, e desistiu de achar a divisão exata.

Quem levou a pergunta a Pascal foi Antoine Gombaud, escritor conhecido como cavaleiro de Méré, frequentador das mesas de Paris. O próprio Pascal, anos depois, organizou a mesma conta numa tabela de números, o Traité du triangle arithmétique (Tratado do triângulo aritmético), impresso em 1665.

 
 

II  O Enigma do dia

Quatro vitórias, placar de 2 a 1

Dois jogadores apostam 32 pistolas cada, e leva as 64 quem vencer quatro rodadas primeiro. Cada rodada é meio a meio. A partida para com o líder em 2 vitórias e o rival em 1. Quanto cada um deve receber? Pergunta extra: quantas rodadas fictícias Fermat precisaria imaginar para contar os casos?

O enigma usa a bolsa e o placar da carta de Pascal. Muda só a meta: quatro vitórias em vez de três. Parece detalhe, e altera a distância de cada jogador até a bolsa.

Com a meta em quatro, o líder precisa de mais duas vitórias e o rival de mais três. O placar continua mostrando 2 a 1, a regra de Pacioli continua dando 2 para 1, e a divisão justa sai diferente da divisão da carta.

As regras são as da mesa honesta. Nenhum jogador tem vantagem de habilidade, cada rodada é independente das anteriores, e a partida não termina empatada. A resposta pede a parte de cada jogador em pistolas, sem arredondar, e a quantidade de rodadas fictícias.

Uma pista: comece pelo jogador que precisa de mais vitórias. Descubra de quantas maneiras ele consegue as três de que precisa antes de o líder conseguir duas. Contar os casos do lado mais difícil costuma dar menos trabalho.

Três tropeços comuns

O primeiro tropeço é repetir a regra do placar. Dividir 64 em 2 para 1 dá 42,7 e 21,3, os mesmos valores da disputa de três vitórias. Se a meta mudou e a divisão não, a regra está olhando para o passado.

O segundo é contar as vitórias que faltam e dividir por elas. Faltam 2 ao líder e 3 ao rival; repartir em 3 para 2 soa esperto, mas mistura distância com chance. Uma vitória a mais para buscar pesa mais que um ponto a mais no placar.

O terceiro é imaginar rodadas fictícias de menos. Com duas ou três rodadas, alguns finais ficam sem vencedor, e a contagem sai torta. Fermat parava só quando toda sequência possível apontava um ganhador.

Para dividir uma bolsa interrompida, pergunte quantas vitórias faltam a cada lado, e nunca quantas cada lado já tem.

Responda por escrito: a parte de cada jogador em pistolas e o número de rodadas fictícias.

 

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III  Sequência

As 16 sequências de Fermat

O material é papel e lápis. O procedimento abaixo resolve o enigma e qualquer partida interrompida entre dois jogadores de força igual.

1. Anote quantas vitórias faltam a cada um. Aqui, 2 ao líder e 3 ao rival.

2. Some as duas faltas e tire 1. O resultado, 4, é a quantidade de rodadas fictícias que garante um vencedor em toda sequência.

3. Liste as sequências possíveis. Quatro rodadas de meio a meio geram 2 elevado a 4, ou 16 sequências igualmente prováveis.

4. Conte em quantas o rival vence três rodadas ou mais. Três vitórias em quatro aparecem em 4 sequências; quatro em quatro, em 1. Total do rival: 5 sequências.

5. Reparta a bolsa na proporção das sequências. O líder fica com 11 de 16; o rival, com 5 de 16.

"Vejo bem que a verdade é idêntica em Toulouse e em Paris."

Blaise Pascal, carta a Pierre de Fermat, 29 de julho de 1654, ao ver que o método dele e o de Fermat chegavam ao número igual.

A conta final: 64 vezes 11/16 dá 44 pistolas para o líder, e 64 vezes 5/16 dá 20 para o rival. Na disputa de três vitórias, o rival com o mesmo placar levava 16; com a meta mais longa, ganha 4 pistolas a mais, porque há mais rodadas para virar.

A pergunta extra tem resposta direta: 4 rodadas fictícias. Com 3, a sequência de rival, rival e líder deixaria o líder com 3 vitórias e o rival com 3, e ninguém teria chegado a quatro.

O método de Pascal confirma pelo caminho de trás. Se o líder vence a próxima rodada, fica a uma vitória da bolsa contra três do rival; o rival só vira vencendo três seguidas, chance de 1 em 8, e o líder garante 7/8 de 64, ou 56 pistolas.

Se o rival vence a próxima rodada, o placar vira 2 a 2 com meta quatro, e o jogo fica simétrico: 32 para cada. A média de 56 e 32, os dois ramos com chance igual, dá 44. Os dois métodos chegam às mesmas 44 pistolas.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes de conferir a solução, e o placar zera quando você espia fora da hora.

A divisão justa olha para as rodadas que faltam. Liste os futuros possíveis, conte os que cada um vence e reparta a bolsa na mesma proporção.

"Em quantas decisões do seu dia você reparte pelo placar do passado quando deveria repartir pelo jogo que falta?"

Teste hoje: jogue uma moeda em partidas de três vitórias, sempre recomeçando do placar de 2 a 1, e anote quem leva cada partida. Faça 40 partidas e conte as vitórias do líder. A conta de Pascal prevê cerca de 30 para o líder e 10 para o rival; a regra de Pacioli preveria perto de 27 e 13. Veja qual das duas chegou mais perto.

 
 

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Na carta de 29 de julho de 1654, com a partida parada em 2 a 1 e a bolsa de 64 pistolas, quantas pistolas Pascal deu ao jogador que liderava?

A32 pistolas, a metade da bolsa
B42,7 pistolas, a proporção do placar
C48 pistolas
D16 pistolas

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