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ED 047
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A corda que sobra um metro na Linha do Equador

Uma corda apertada em volta do planeta ganha um metro e descola do chão na volta inteira, numa altura que cabe na mão.

Corda de aço tensionada em volta do globo terrestre, erguida alguns centímetros acima da linha do Equador.

Um metro a mais na volta do planeta

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Quanto uma corda esticada rente à Linha do Equador sobe se você emendar um metro a ela? Sobe quase dezesseis centímetros na volta inteira, altura suficiente pra passar a mão embaixo, e a resposta não muda se a corda estivesse em volta de uma laranja.

O enunciado é curto. Imagine uma corda de aço apertada contra o chão em toda a volta do planeta pela Linha do Equador, sem folga nenhuma, colada na superfície. Alguém corta a corda, insere um pedaço de exatamente um metro e emenda tudo de volta. A corda maior agora flutua a uma distância constante da superfície, igual em cada ponto da volta. A pergunta é essa distância.

A cabeça reage com desprezo pela quantidade. Um metro perdido numa circunferência de quarenta milhões de metros parece nada, e a maioria das pessoas responde com a espessura de um fio de cabelo ou algo invisível a olho nu. Quem chuta assim está comparando o acréscimo com a volta toda, e esse é justamente o caminho que não leva à conta certa.

A folga vale 15,9 centímetros. Um gato passa por baixo da corda sem encostar as orelhas. O elipsoide WGS 84, o modelo de planeta que o sistema GPS usa desde 1984, dá 6.378.137 metros de raio equatorial, e esse número gigante desaparece na hora de calcular a folga, porque ele aparece nos dois lados da subtração e some.

Repare no que a resposta implica. A mesma corda em volta de uma bola de tênis, ganhando o mesmo um metro, afasta-se da bola exatamente 15,9 centímetros também. Em volta do Sol, idem. A folga ignora o corpo que está lá dentro e obedece só ao pedaço acrescentado, dividido por um número fixo que aparece em toda circunferência.

Quem erra aqui não erra de conta. Erra de comparação: coloca o metro ao lado da circunferência inteira quando deveria colocá-lo ao lado do raio, que é a grandeza que a folga realmente mexe.

A conta que faz o raio sumir tem duas linhas e cabe num guardanapo.

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I  A resposta de ontem

Quinze centímetros que a laranja também tem

Essa charada já circulava em sala de aula no início do século dezoito: William Whiston, matemático inglês que sucedeu Isaac Newton na cadeira de Cambridge, publicou uma versão dela em The Elements of Euclid, de 1702, e desde então ela funciona como armadilha de intuição em qualquer plateia.

A conta começa pela fórmula que todo mundo decora na escola e quase ninguém usa desse jeito. Uma circunferência vale dois pi vezes o raio. Se a corda colada tem comprimento C e raio R, então C igual a dois pi vezes R. A corda emendada tem comprimento C mais 1 e envolve um círculo de raio maior, que podemos chamar de R linha.

Escreva as duas: C mais 1 igual a dois pi vezes R linha. Substitua C por dois pi vezes R e isole. Sobra R linha menos R igual a 1 dividido por dois pi. A subtração matou o raio original, e o que resta depende só do metro acrescentado.

Um dividido por dois pi dá 0,15915 metro, ou 15,9 centímetros. O planeta não entra na conta em momento algum. Trocar a Linha do Equador por uma bola de boliche, por um estádio ou pela órbita de Netuno devolve a mesmíssima folga, porque a única grandeza que sobrevive à subtração é o acréscimo.

A folga não depende do corpo envolvido, e sim do comprimento emendado. Cada metro extra na corda afasta ela 15,9 centímetros da superfície, seja qual for a esfera embaixo.

Onde a intuição escorrega

O primeiro deslize é comparar grandezas de famílias diferentes. Um metro dividido por quarenta milhões de metros realmente dá uma fração desprezível, mas essa razão descreve o quanto a corda ficou mais comprida em termos percentuais, não o quanto ela subiu. A altura é uma distância radial, e ela responde a uma divisão por 6,28, nunca a uma divisão pelo perímetro.

O segundo deslize é achar que uma resposta tão limpa esconde alguma trapaça. Nenhuma aproximação foi usada, nenhum arredondamento grosseiro entrou no caminho. A conta é exata para uma esfera perfeita, e o achatamento real do planeta muda o desenho da corda, jamais a fração 1 sobre 2 pi.

O terceiro deslize é imaginar que a corda sobe mais em alguns trechos. Como a folga é constante em cada ponto da volta, a corda emendada desenha um círculo concêntrico ao primeiro, e nenhum pedaço dela fica mais alto que outro. Um cenário diferente aparece quando alguém puxa a corda por um ponto só, e aí os números mudam de escala.

 
 

II  O Enigma do dia

Uma laranja, um puxão e seis metros de emenda

Três perguntas, e as três pedem número escrito, não palpite. Primeira: a mesma corda, agora apertada em volta de uma laranja de dez centímetros de diâmetro, ganha um metro de emenda igualmente. Qual a folga entre a corda e a casca? Segunda: você quer erguer a corda original um metro do chão na volta inteira do Equador. Quantos metros de corda precisa emendar? Terceira: em vez de deixar a corda subir parelho, você fixa o metro extra e puxa a corda pra cima por um único ponto, mantendo o resto rente ao chão. A que altura o ponto puxado chega?

As regras merecem leitura calma. A corda é inextensível, o planeta é tratado como esfera de raio 6.378.137 metros, e a resposta pedida traz o número com unidade mais o critério que decide cada caso. A terceira pergunta é de outra natureza, e reconhecer a diferença já vale metade da solução.

Onde quase todo mundo trava

O primeiro erro é responder a primeira pergunta procurando o diâmetro da laranja. Quem parte pra calcular o perímetro da fruta gasta tempo com um número que vai se cancelar na subtração, exatamente como o raio equatorial se cancelou.

O segundo erro é tratar a segunda pergunta como regra de três sobre quarenta milhões. Erguer a corda um metro significa aumentar o raio em um metro, e o comprimento responde a uma multiplicação modesta, não a uma proporção gigantesca. A resposta cabe numa frase e costuma provocar incredulidade.

O terceiro erro é achar que o puxão num ponto só devolve uma altura parecida com os 15,9 centímetros. Quando a corda deixa de ser concêntrica, ela forma dois segmentos retos tangentes à superfície mais o arco que continua encostado, e essa geometria concentra toda a sobra num lugar só. A altura resultante não se mede em centímetros.

A geometria muda de regime quando a folga deixa de ser uniforme. Distribuída na volta inteira, a sobra se dilui e vira uma fração fixa; concentrada num ponto, ela se transforma numa altura que ultrapassa prédios inteiros, com o mesmo metro de corda.

Responda as três com prova escrita. A folga na laranja, os metros necessários pra erguer a corda um metro em toda a volta, e a altura do ponto puxado no terceiro cenário.

 

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III  Sequência

A conta que faz o raio desaparecer

O material é papel, lápis, uma calculadora e dez minutos. O procedimento abaixo fecha os três casos e serve pra qualquer situação em que um perímetro cresce e você quer saber o efeito no raio.

1. Escreva as duas circunferências. Perímetro original igual a dois pi vezes R, perímetro novo igual a dois pi vezes R linha. Nunca calcule cada perímetro separadamente: o objetivo é a diferença.

2. Subtraia uma da outra. O acréscimo de comprimento, chame de L, iguala dois pi vezes a diferença dos raios. Daí sai a fórmula que resolve o problema inteiro: a variação do raio vale L dividido por dois pi, ou seja L vezes 0,159.

3. Inverta a fórmula quando a pergunta vier pelo outro lado. Se você quer uma folga h conhecida, o comprimento a emendar vale dois pi vezes h, isto é 6,28 vezes h. Subir um metro pede 6,28 metros de corda, na laranja ou no planeta.

4. Separe o caso concentrado. Se a sobra vai pra um ponto único, a corda vira dois segmentos tangentes mais o arco restante, e a relação passa a envolver tangente de um ângulo. A equação fica dois R vezes a tangente menos o ângulo igual a L, e ela pede resolução numérica.

"Um grande descobrimento resolve um grande problema, mas há uma pitada de descoberta na solução de qualquer problema."

George Pólya, A Arte de Resolver Problemas, 1945.

As três respostas saem sem sobra. A laranja devolve os mesmos 15,9 centímetros do planeta, porque o raio sumiu na subtração e restou 1 sobre 2 pi. Erguer a corda um metro na volta inteira do Equador custa 6,28 metros de emenda, e não os milhares que a intuição promete. O terceiro cenário, com um metro de sobra puxado num ponto só, ergue a corda a 121,5 metros de altura, algo como um prédio de quarenta andares, porque a sobra deixou de se dividir pela volta e se concentrou num vértice.

A Sequência é o placar de quem fecha sozinho. Um ponto por enigma resolvido antes da solução chegar, e o placar zera quando você espia fora da hora.

A fórmula viaja bem. Ela explica por que um anel de dedo aumenta de aro com um acréscimo mínimo de metal, por que trilhos de trem precisam de juntas milimétricas pra absorver dilatação térmica, e por que uma cinta de aço em volta de um tanque industrial afrouxa de forma perceptível quando o metal esquenta poucos graus. A grandeza que muda é sempre o raio, e ele responde a uma divisão por 6,28.

Comparação errada produz intuição errada. O metro parecia nulo porque foi medido contra a volta inteira; medido contra o raio, que é o que a folga movimenta, ele é enorme. Toda vez que uma resposta parecer absurda, confira se você comparou as grandezas certas.

"Quantas conclusões você já descartou por compará-las com o número errado?"

Teste hoje, em cinco minutos: pegue uma lata de refrigerante, meça o perímetro dela com um barbante e anote. Corte o barbante nessa medida e acrescente 6,3 centímetros. Feche o laço, apoie ao redor da lata e afaste o barbante até ele ficar circular: a distância entre ele e a lata vai dar um centímetro certinho, em qualquer ponto. Repita com uma garrafa muito mais grossa acrescentando os mesmos 6,3 centímetros e meça de novo: dá um centímetro outra vez, e a cabeça aceita o resultado que a conta já tinha entregado.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, quantos metros de corda é preciso emendar pra erguer a corda original um metro do chão em toda a volta do Equador?

A1 metro
B3,14 metros
C6,28 metros
D40 milhões de metros

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