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1.000 anos sem gabarito no Livro de Exeter

Um copista inglês escreveu quase cem adivinhas em inglês antigo e nenhuma resposta. Algumas seguem sem solução até hoje.

Códice medieval de pergaminho fechado sobre uma mesa escura, sob luz lateral dura.

O Livro de Exeter, na catedral desde 1072

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Quem anotou as respostas dos enigmas do Livro de Exeter? Ninguém. O copista inglês que encheu o volume de poemas, perto do ano 975, escreveu quase cem adivinhas em inglês antigo, uma atrás da outra, e não deixou uma linha de solução na margem, no rodapé ou numa folha à parte.

O livro mora na biblioteca da Catedral de Exeter, no sudoeste da Inglaterra, sob a cota MS 3501 (o número de catálogo da peça). As adivinhas ocupam as folhas 101 a 130, entre poemas religiosos, lamentos de exílio e um pequeno bestiário com a pantera e a baleia.

Cada adivinha descreve um objeto sem dizer qual. Muitas abrem com Ic seah (eu vi) ou com Ic eom wunderlicu wiht (sou uma criatura espantosa), e o objeto se apresenta como bicho, viajante ou guerreiro. Cabe ao leitor descobrir de quem é a voz.

Parte delas os estudiosos resolveram com folga: o escudo que apanha em toda batalha, o cisne cujas penas cantam quando ele voa. O Enigma 47 até entrega o bicho na primeira frase, Moððe word fræt (uma traça comeu palavras), e guarda o mistério pro resto: o ladrão engoliu um poema inteiro no escuro e não ficou um grão mais sábio.

Outra parte segue em disputa, com cinco ou seis propostas que servem pela metade. E pelo menos uma, a única escrita em latim, atravessou dez séculos sem uma resposta que convença os especialistas. Os poemas resistem por motivos diferentes, e cada motivo tem nome: falta de título, palavra perdida, versos que aceitam leituras demais.

A seguir, de onde vieram esses poemas e por que chegaram sem gabarito. Depois, um enigma resolvido do livro, traduzido verso a verso, pra você tentar antes da resposta. Por último, a solução decifrada linha por linha e os casos que seguem abertos, com o motivo de cada impasse.

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I  A resposta de ontem

Cortes de faca na primeira folha

O Livro de Exeter chegou ao século XXI com marcas de uso pouco nobre. A primeira folha que sobrou do volume original tem cortes fundos de faca, e uma mancha redonda de líquido atravessa três folhas seguidas.

Os estudiosos leem os cortes como sinal de que o livro, ainda sem encadernação, serviu de tábua de cortar. A mancha veio de uma caneca de cerveja ou de um pote de cola; as duas hipóteses seguem de pé porque nenhum registro da catedral conta o episódio.

Na outra ponta, uma queimadura comprida, em diagonal, comeu parte do texto das últimas 14 folhas. Alguém apoiou ali um objeto em brasa, e ninguém sabe qual objeto nem em que século, pela mesma falta de registro. O estrago caiu justo no segundo grande bloco de adivinhas, e vários poemas dali chegaram com versos pela metade.

A lista do bispo Leofric

O caminho do livro até a catedral tem documento. Leofric, primeiro bispo de Exeter, deixou uma lista dos bens que doava à igreja, e um dos itens descreve o volume sem margem para engano: “.i. mycel englisc boc be gehwilcum þingum on leoðwisan geworht” (um grande livro inglês sobre assuntos diversos, feito em verso), lista de doações do bispo Leofric à Catedral de Exeter, 1072.

Onde e por quem o livro foi copiado, a lista não diz. O copista não assinou nem datou o trabalho, e a identidade dele segue desconhecida; a forma da letra é a única pista e aponta para a segunda metade do século X.

Os modelos traziam a resposta no título

O gênero chegou à Inglaterra pelo latim. Symphosius, poeta latino dos séculos IV ou V, deixou cem enigmas de três versos cada. Aldhelm de Malmesbury, abade e bispo inglês que viveu até 709, escreveu outros cem. Nas duas coleções, cada poema vem encabeçado por um título, e o título é a resposta: Glacies (gelo), em Symphosius; Lorica (cota de malha), em Aldhelm.

O Livro de Exeter traduz alguns desses modelos. O Enigma 35 põe em inglês antigo a cota de malha de Aldhelm, e uma versão mais velha do mesmo poema, no dialeto da Nortúmbria (o antigo reino do norte da Inglaterra), sobreviveu num manuscrito do século IX hoje guardado em Leiden, nos Países Baixos. O Enigma 40 traduz o centésimo poema de Aldhelm, De creatura (sobre a criação). Na cópia de Exeter, nenhum dos dois traz título.

Os modelos latinos davam a resposta no título; em Exeter, os poemas chegaram sem ela.

Por que o copista tirou os títulos, ou se eles nunca estiveram no modelo que ele copiava, ninguém sabe: o modelo se perdeu e nenhuma nota do copista sobreviveu. Uma hipótese liga o formato ao salão anglo-saxão, onde a adivinha se dizia diante dos convidados e a resposta vinha deles, sem gabarito escrito.

Sem título, nem a contagem fecha. George Philip Krapp e Elliott Van Kirk Dobbie numeraram 95 enigmas na edição de 1936; Craig Williamson, em 1977, juntou trechos que leu como um poema só e chegou a 91. Onde um enigma acaba e o seguinte começa, no manuscrito, é decisão de editor.

 
 

II  O Enigma do dia

Quatro criaturas de rastro preto

Um enigma do Livro de Exeter, traduzido do inglês antigo: “Vi quatro criaturas curiosas viajando juntas. Pretos eram os rastros, a trilha bem escura. Rápido no avanço, mais ousado que as aves, voava no ar e mergulhava sob a onda. Sem descanso trabalhava o guerreiro que mostra o caminho às quatro sobre o ouro lavrado.” Quem são as quatro criaturas, e quem é o guerreiro?

O poema ocupa a folha 113 do manuscrito e tem sete versos no original. Na contagem de Krapp e Dobbie, ele é o Enigma 51.

O palpite comum é uma parelha de cavalos puxando carroça: quatro bichos na estrada, rastro escuro na terra, um condutor na frente. Erra porque cavalo não voa nem mergulha, e o poema pede um viajante capaz das duas proezas.

O que conferir

Cada verbo do poema precisa servir ao mesmo objeto. O viajante deixa rastro preto, voa no ar, mergulha sob uma onda e anda sobre ouro, sempre guiado por alguém que trabalha sem parar.

O texto também separa os números. As criaturas são quatro e viajam juntas, mas os verbos do voo e do mergulho estão no singular, no original. Três delas acompanham, e só uma voa e mergulha.

As pistas

1. Primeira pista: o rastro preto não sai mais do lugar por onde a criatura passou.

2. Segunda pista: a onda do poema cabe num chifre de boi, que o escriba medieval deixava aberto na mesa.

3. Terceira pista: o ouro lavrado é uma folha de pergaminho enfeitada com tinta dourada.

4. Quarta pista: três das quatro criaturas fazem parte do corpo do guerreiro.

Onde o raciocínio escorrega

O primeiro escorregão é tratar as quatro criaturas como quatro bichos iguais. O poema avisa que só uma voa e mergulha, e as outras três seguem junto.

O segundo é ler a onda como mar. O enigma usa yþ (onda), a mesma palavra dos poemas de navegação, pra esconder um líquido bem menor e bem mais escuro.

O terceiro é procurar um soldado. O poema chama de wiga (guerreiro) alguém que luta com uma tarefa, e essa luta acontece sentada, com uma das mãos.

Nas adivinhas de Exeter, o objeto comum ganha voz de bicho, de viajante ou de guerreiro.

Responda antes de seguir: escreva num papel as quatro criaturas e o guerreiro.

 

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III  Sequência

A pena, os dedos e o lobo em latim

A resposta aceita pelos editores modernos do Enigma 51 é a escrita: uma pena de ave e os três dedos que a seguram, guiados pelo copista. Em cinco passos:

1. As quatro criaturas que viajam juntas são a pena e os três dedos que a apertam: polegar, indicador e médio.

2. O rastro preto é a linha de tinta, que fica na folha depois que a pena passa.

3. Voar no ar e mergulhar sob a onda é o vaivém da pena entre a página e o tinteiro de chifre. Ela é mais ousada que as aves porque saiu da asa de uma delas.

4. O ouro lavrado é a página iluminada (decorada com ouro e cor), e o caminho sobre ela é a linha de texto.

5. O guerreiro sem descanso é o próprio escriba, que conduz as quatro criaturas palavra por palavra.

O enigma descreve o trabalho de quem o copiou. A mão que escreveu a folha 113 fazia, enquanto copiava, exatamente a cena do poema.

Os enigmas que seguem abertos

Nem todo poema da coleção cede assim. O Enigma 90, o único em latim, começa: “Mirum videtur mihi: lupus ab agno tenetur” (parece-me um prodígio: o lobo é preso pelo cordeiro). Depois aparecem dois lobos que atormentam um terceiro, com quatro pés e sete olhos.

Henry Morley, estudioso inglês do século XIX, leu ali o Cordeiro de Deus; outros propuseram a teia e o tear, ou um candelabro. Mercedes Salvador-Bello escreveu em 2018, na revista acadêmica Neophilologus, que nenhuma solução satisfatória tinha aparecido, e leu o texto como exercício escolar de latim rebuscado.

Parte do impasse é física. No segundo verso, duas letras do verbo sumiram num ponto queimado e falta uma palavra inteira; os editores costumam pôr rupi (sobre a pedra), escolhida pela rima com lupi (do lobo), sem prova de que estava lá.

O Enigma 74 tem o problema oposto: respostas demais. A voz diz ter sido moça jovem, mulher grisalha e guerreiro sem igual ao mesmo tempo, e conta que voou com as aves, nadou no mar e pisou a terra. Já propuseram sereia, carranca de proa, barco de carvalho, pena de escrever, sépia (o molusco) e água; cada proposta explica parte dos versos e tropeça em outra.

O último da coleção, o Enigma 95, fala de um ser nobre, conhecido de ricos e pobres, que viaja longe. Os traços servem a muitos candidatos: o livro, a alma, a lua, o sol. Dieter Bitterli defendeu o sol em 2019, e a lista continua aberta.

Em Exeter, o enigma sem solução nasce de três faltas: o título, a palavra queimada e o acordo entre leitores.

“Quem são as quatro criaturas de rastro preto do Enigma 51?”

A pena e os três dedos do copista, guiados pela mão dele sobre a página dourada.

Teste hoje: descreva um objeto da sua mesa em três frases no molde do Enigma 51 (o que ele faz, o rastro que deixa, quem o guia), sem dizer o nome. Leia pra alguém e conte os palpites errados antes do certo. Acerto no primeiro palpite quer dizer que a frase do rastro entregou demais: troque por um verbo de bicho e teste de novo.

 
 
Quiz da edição

No Enigma 51 (das quatro criaturas e do guerreiro), qual é a resposta aceita pelos editores modernos?

AUm cisne cujas penas cantam quando ele voa
BUma pena de ave e os três dedos que a seguram
CUma parelha de cavalos puxando uma carroça
DUma traça que devorou um poema inteiro no escuro

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